quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ENTREVISTADORES: ANA PAULA MARTINS, AURÉLIA OLIVEIRA, ANDREA BRITTO E IRACY MOURA

ENTREVISTA 1
Cidade: Floresta Azul
Idade: 67 anos
Escolaridade: não-alfabetizada

ENTREVISTADORA: Bom dia amiga, posso conversar um pouquinho com a senhora?
Pera um pouco que nois papeia (...) pronto minha fia...agora nois pode
ENT: Qual o nome da senhora?
Maria de Fátima Santos da Silva.
ENT: Dona Maria, eu estava pensando nas histórias que o povo conta, sobre as coisas, os bichos, os casos que o Rio São Francisco tem....
Ah (...0 minha fia (...) esse rio tem é história
ENT: A senhora fazia o que nesse rio?
Meu velho vinha pescá e eu vinha também (...) trazia as roupa pra gomar e os caco véi pra lumiar (...) hoje não é igual ao tempo de pai, o povo ta a-ca-ban-no com tudo
ENT: Como assim, a senhora fala “no temo de pai”?
FARTANÇA de tanta água (...) hoje tem mais lixo do que água (...) os homem parece que carece de tudo... quanto mais tem mais quer (...) Damião ia pescá mais os parceiro lá da roça e trazia tanto peixe (gestos com as mãos) Ó minha fia...precisa de ver
ENT: Vocês sempre viveram da pesca?
Damião trabaiô na roça e pescava até o homem da roça colocá nois pra fora pro mode que ele rendou a roça pro moço da cidade e nois ter de sair...mas também a gente ia mesmo carecer de SAIR qualquer hora (...) Dami num tava mais pescando tanto peixe...era ca-da pexão fia...precisava vê (...)tinha um tão grande ...FORTE...ninguém conseguia guiá o bicho.
ENT: Como assim guiar, me explique melhor...
Os amigo de Dami deixava o bicho fugir...não ficava no anzol...num sabia guiar o bicho até a canoa...era MUI::TO bravo fia (...)precisa vê (nesse momento faz pergunta a outra pessoa) – Dona Maria como era o nome daquele peixe do tempo de Dami e Seu Zé?
[
não alembro Fátima...aquilo era coisa do demônio
ENT: Ela é crente?
É:::fia...é serva(...) mas o peixe era brabo mermo

ENT: E por que a qualquer hora vocês iam carecer sair de lá?
Insunta...o patrão de Dami falou que o peixe dava MUITO dinheiro...que se pescasse o bicho era pra devolver pro rio que esse peixe ia pra outra cidade e o fio dele levava...mas o minino num sabia pescá(...) Dami num pescava de noite... porque minha fia tu sabe que o rio dorme e os povo num respeita isso
ENT: Nunca ouvi falar!
Esse povo num acredita em nada...hoje ninguém veve como nois viveu(...)tem que trabalhá nos prédio grande...se os povo que não tem trabaio acreditasse nas coisa da água ia ter fartança na mesa...porque peixe não ia faltar(...)Se você banhasse nesse rio no meu tempo ia vê a for-ça dele...corrente braba fia...e a noite ele ficava parado pra perigar no outro dia...Dami e seu Zé num temia não e pescava muito...ia nas corrente braba tudo...num desistia(...)benzia antes de entrar pra abençoar...né fia e i:::a...num tinha dia pra fartá peixe pra nois comer e Dami vender.
ENT: Então, o que aconteceu?
O rio era uma beleza que só...Ô:: coisa lin-da...Dami e Seu Zé um dia num tava satisfeito e combinô de pescá a noite...eu disse a ele pra num teimá e ficá em casa(...)mas ele queria pegá peixe o patrão dele não deixava porque a noite ninguém ia ver...tudo treva...mas é falta de respeito entrar na água quando ela tá descansando
ENT: É? Interessante! Não sabia que o rio descansava!
(Risos) fia...a natureza tá vi-va...nois num descansa? Intonce...INSUNTA(...)eles partiram e foram pegá o peixão... daí o cabôco da água castigô...a canoa quase vira e troxeram esse maldito nas escura e venderam(...)eles compraram uma égua BUNITA com o peixe que eu nem me alembro quanto foi...só alembro até hoje que depois daquela noite o rio num deu mais peixe e o moço que o patrão passou a roça...bateu logo umas pedra nele e botou uns cano pra moiá as planta...mas peixe que é bom...NA::DA nunca mais
ENT: E o patrão do seu marido fez o que com vocês?
Ele botô o registro de Dami e Seu Zé no SS... eles recebe todo dia 04 no banco(...) é melhor né fia ...tenho medo de castigo de novo é melhor não brincá com a zanga do cabôco...ele num quis mais fumo(...)fia...agora eu creço entrá pro mode vocês num vem aqui amanhã prosiar com Dami? Ele tem uns caso de arrepiá
ENT: Dona Maria, a gente vem sim, mas não amanhã porque não podemos
Leva uns tempero procês...pega ali Nino
ENTREVISTA 2
Cidade: Ilhéus
Idade: 66 anos
Escolaridade: fundamental I ( antigo primário)


( )Mamãe nem sabia ...que eu fui com ele. Hum pra vê a caceia sabe o que é caceia? Pra vê peixe que ta na re::de (gestos fechando os braços) Quando chega lá a gente foi Lucinha. Quando chega lá o mar eu vi o mar bonito aquelas onda e:: e vi os peixe ói nadan::do ó (gestos com as mãos simulando o movimento dos peixes) só isso que eu vi. E quando eu fui tomar banho na praia eu vi um (..) um TUBARÃO:: sabe o que é um tubarão?(...) é se chama:: cumé Lucinha? O nome (...) tubarão mermo. Que ponta que aponta aquela vela pra cima a vela (gestos com a mão simulando a barbatana do tubarão) é tubarão.
A senhora viu alguma coisa estranha no mar?
Eu não só vi PEI::XE no mar peixe e a jangada querendo virar com o homem querendo virar e a maré cheia que queria virar e eu assim no pau da jangada assim (gestos com as mãos) no cumé no meio da jangada em cima da jangada (gestos com as mãos) pra não caí (...) aí pronto (bate palma) aí vi os peixe NADAN::DO (movimento com o corpo, simulando o peixe nadando) e eu olhando só assim.
Alguma coisa tipo sereia?
Não(...) isso aí não vi não(...) não vi não. Mamãe que contava que na Lagoa Encantada tinha sereia que vinha cantar e via as (...) a uma (...) as baronesa juntando uma com a outra (gestos com as mãos) Mamãe contava isso. Só o que eu sei.
Alguma coisa tipo mãe d’água?
Então a mãe d’água é uma sereia.
E nego d’água a senhora já ouviu falar?
Mamãe também falava falava também o avô d’água também.
Como era o avô d’água?
Num sei ela disse que viu o avô d’água mas não sei cumé mas ela disse que viu na Lagoa Encantada né Lucia? O avô d’água é do mar.
A senhora nunca viu o avô d’água?
Não
Nem Mãe d’água?
Não (...) Mãe disse que via ( ) Só vi os pei::xe.
ENTREVISTA 3
Idade: 82 anos
Cidade: Ilhéus
Escolaridade: alfabetizado

LOCUTOR 1 [ ] pra comercializar ou só para sustento?
Emílio: De rede pescava muito só pra sustento.
L¹: pra sustento
Emílio: é pra...pra
L¹: ( )
Emílio: é..é...dar comer e:: (gestos com as mãos) pronto
L¹: e pronto
Emílio: é
L¹: Aí também ( ) tratar um salgado?
Emílio: é ...é...ela fazia...ela fazia (gestos com as mãos) gamela de peixe tratado aí...
sai/secava ( )
L¹: secava é...
((ruído))
L¹: era fartura aquele tempo então
Emilio: é..é fartura
L¹: Hoje tem ( )
Emílio: Num dá não..dá só quando...no inverno
L²: no inverno pescamos demais né?
Emilio: da/é...é..bobagem
L¹: é bobagem é...
Emilio: é..
L¹: é bobagem...também a exploração...
Emílio: tinha vezes da gente pescar assim numa noite matar seis...oito curimã
L¹: olha rapaz..é?
Emílio: por fora a talinhada (algum peixe) curimã
L¹: que a curimã já é... (gestos com as mãos)
Emílio: é grande é... (gestos com a mãos)
L¹: é curimã já é grande
Emílio: é..matei curimã aí na rede de quatro quilos
L¹: quatro quilos?
Emilio: é:: (aceno com a cabeça)
L¹: eita..é a festa né?
Emilio: olha a cabeçona..
L¹: ê::
Emilio: iji! A gente tinha uma alegria quando ( ) bate na rede
L¹: faz uma zuada danada (gestos com as mãos)
Emilio: ( ) é...
L¹: sacode toda né?
Emilio: é...
L¹: a tal da curimã é perigosa né?
Emilio: é...em vez que bate três quatro dentro
L¹: ê::
Emilio: da vez que a gente cercou (leva a mão ao pescoço) sempre que dá na rede a gente supapo (gestos com as mãos) da barca
L¹: é isso mesmo
Emilio: e a gente i:: lá vai lá vai
L¹: é::
Emilio: é uma alegria rapaz (sorrindo)
L¹ : mas tomava uma na época? pra esquentar ( )
Emilio: não... cachaça não
L¹: não né
Emilio: não... nunca tomei não
((ruído))
L¹: ( )
Emilio: alia/aliás ... quando eu peguei a pescar com um vei/seu crispim ( ) um véi preto que tem aqui em cima...pesquei...pesquei usando com ele aqui...ele vinha...de lá de cima do oiteiro ali
L¹: oitero
Emilio: pa vim pescar de noite...que É::: o que eu estava dizendo que pescava três quatro vezes na semana com ele...é::
L¹: ( )
Emilio: nesse tempo ele...ele gostava...quando a gente saía por lá na...na...na beira da praia onde tia cachaça ele contava colocava e me dava um pouquinho eu dizia EU NUM QUERO NÃO
L¹: nunca gostou?
Emilio: nunca bebi ( )
L¹: olha ( ) que bom hein?
Emilio: mas eu bebia assim um pouquinho ...só pra( ) escapar ..( ) do frio... do frio
L¹: é:: pra esquentar( ) é:: por isso que eu falo é::
Emilio: uma vez eu vim com ele (rindo)... eu vim com ele de manhã cedo num... (gestos com a mão) quase gelado
L¹: eita
Emilio: de manhã cedo da frieza do inverno
L¹: é...e aqui venta muito
Emilio: e:: aqui era água pura desde lá da rodagem até aqui (gestos com a mão) era água pura...
L¹: brejo
Emilio: brejo puro...era água pura Itacaré aí por dentro...e ele caindo ali por dentro bêbado( ) demais...
Entrevistadora: tinha alguma cobra ( ) no brejo aí?
Emílio: cobra aqui eu ( )não encontrava não
L¹ : não encontrava não?
Emilio: não
Entrevistadora: jibóia?

Emilio: jibóia eu encontrei uma essa semana ali (apontando com a mão) já duas
L¹: foi?
Emilio: já encontrei duas dela no arrancador
L¹: olha...
Emilio: no..no..e eu com a vista ruim quase piso em cima
L²: vixi
L¹ :ela morde
Emilio: ( ) mas não tem veneno não
L¹: não..ela mo/ela não.. tem mais a:: a mordida
Emilio: se bulir ela MORDE (gesto com a mão)
L¹: ela segura que é a força né? Por causa da presa
Emilio: é...é
L¹: né?
Emilio: é..eu quase PISO
L¹: pequena?
Emilio: não...ela é ...filhote ...ela é(gesto com a mãos) acho que é essa grossura aqui dá( juntando as pontas dos dedos)
L¹: é isso mesmo
Emilio: mas filhote
L¹: filhote
Emilio: é..por que aqui..porque por aqui ...aqui eu já vi uma vez aí na beira do brejo um ENORME ..é ...cresce pra mais de...de... dez...dez...
L¹: dez metros
Emilio: dez pé não...dez palmo
L¹: dez palmo?
Emilio: é
L¹: ahh
Emilio: dois metro por aí
L¹: pensei que era 10 metro
Emilio: não
Entrevistadora: e as tarrafas o senhor..fazia ainda?
Emilio: tarrafa não
L¹: o senhor fazia tarrafa?
Emilio: não
L¹: ( )
Emilio: nunca
L¹: ( )
Emilio: nunca pedi( ) pescar de tarrafa...quem pesca de tarrafa é Zé...
L¹: Zé?
Emilio: é...mas eu não
L¹: a tarrafa ela...( )
Emilio: é...eu..eu...eu...minha pescaria é a rede
L¹: é a rede
Emilio: é...na praia
L¹: ( )
Emílio: é dois calão...só dois calão
L¹: a:: entendi
Emilio: é um calão outro no outro...sai (gestos com as mãos)... vai mirando e vai direto...quando o peixe embarga a gente vira.
L¹: vira ela pro lado de ( )
Emilio: o de..o de..o de terra...que vai por terra...que é mais...o de terra...é quem diz...”VIRA”...o de fora aí..shii (gesto fechando o braço)
L¹: ah entendi
Emilio: é...
L¹: ( )
Entrevistadora: você viu alguma coisa estranha no mar?
Emilio: não...no mar não
L¹: nunca viu peixe de duas cabeça não?
Emilio: (gargalhada)no mar...num...não
L¹: só peixes normais né?
Emilio: é
Entrevistadora: tubarão:: já viu?
Emilio: tu/tubarão cação...cação aqui antigamente nessa praia a gente via...logo quando eu cheguei aqui...da...a gente via muita com a vela aí de fora aí na...
L² :na praia?
Emilio: na maré mansa(gestos com as mãos)maré mansa...eles na onda com água por aqui assim (gestos com as mãos)eles sem o ( ) aí depois sumiu...eu acho que o bicho ficou com medo de gente né?
L¹: é:::
Emilio: per aquele tempo era pouca gente...
L¹: é
Emilio: que andava nessa praia aí...pouca gente(gestos com as mãos)
L¹: ( ) muito peixe...eles se alimentavam bem e não vinham pra cá
Emilio: é...agente morava ali ó (acenando com a mão)da barra nova...da barca...naquele meio...( ) a gente via tava saindo da praia tava eles com aquela vela no...fora d’água...tem uma velona assim (gestos com as mãos)
Entrevistadora: e havia alguma história daquele rio ali do/da tulha?
Emilio: na tulha num tem rio ( )
Entrevistadora: naquele rio ali
Emilio: ali é a mamoã
L¹: mamoã?
Emilio: é mamoã...perto do rio se chama mamoã...é
Entrevistadora: qual é a historia dali
Emilio: hein?
L¹: tem uma história...de:: pescador?
Entrevistadora: do rio ali...
Emilio: história do rio...do rio da mamoã só tem carangueijo é...
Entrevistadora: por que o nome mamoã?
Emilio: porque é o nome do...do...da barra...é o nome da barrazinha desse rio aí
L¹: mamoã
Emilio: é... nome da barra é...mamoã
Entrevistadora: e tulha? Por que o nome ponta da tulha?
Emilio: tulha... antiga... é nome antigo...ponta da tulha...PONTA DA TULHA...a ponta da tulha é as ponta daqui da praia...tem ói...de Ilhéus da barra grande...da barra aí...a::...a barra nova...é uma volta só(gestos) ela vem sempre fazendo aquela curva assim oi...(gestos) não tem ponta...agora da BARRA NOVA pra cima é ponta...ponta de/da barra nova (gestos) ponta do rolinho...chama rolinho ali onde tem um lavador...ponta do rolinho...ponta da tulha...ponta...ponta do/daqui da mamoã...ponta do ramo...e serra grande
Entrevistadora: e lá onde o senhor morava em alma...almadina não era?
Emilio: não...não morei não
Entrevistadora: morava...e o senhor era de que cidade?
Emilio: quando?
Entrevistadora: o senhor veio de uma cidade
L¹: o senhor antes de vir pra ilhéus morava aonde?
Emilio: meu torrão natal? Meu torrão natal era...Mulungú...esplanada é...
Entrevistadora: ah esplanada
Emilio: município de esplanada...viu falar não viu?
L¹: já (aceno com a cabeça)
Entrevistadora: o senhor pescava lá?
Emilio: era uma cidade bunita
L¹: onde é isso? Na Bahia?
Emilio: é na Bahia...eu morei...quando...quando sai de esplanada...eu era menino..era de doze ano treze de idade...aí meu pai levou todo mundo da família toda pa... vila do conde...pra baixa da vila do conde primeiro...trabalhemos na...praia...mangue...tudo...depois vortemo pa vila do conde
Entrevistadora: o senhor nunca ouviu essa história de rainha d’água...mãe d’água...vovô d’água?
Emilio: mãe d’água..(aceno de negação com o rosto) nunca vi história de mãe d’água não
Entrevistadora: mãe falou que rainha d’água é sereia...é verdade isso?
Emilio: não...tem a mãe d’água...chamam mãe d’água...é do rio...e a sereia é do mar
Entrevistadora: a mãe d’água é o que?
Emilio: a mãe d’água diz que é uma:: ... um negócio aí...tem a mãe d’água no rio...
Entrevistadora: contaram o que pro senhor sobre a mãe d’água?
Emilio: no rio é::: ... o que eu to contando...no rio tem...tem a mãe d’água...e tem né? O véio ...tem outro nome...
Entrevistadora: o velho d’água?
Emilio: é...o veio d’água...tem um também
L¹: é essas lendas né?
Emilio: é essas lendas...essas lendas...que eles falam
Entrevistadora: e o velho d’água? ... o senhor nunca...
Emilio: mas eu nunca vi não...pra ver mesmo não...ói dizem que essa praia aí...o povo fala que é muita é marlassombrada...eu pesquei nessa praia a noite toda nunca vi
L¹: nunca viu nada
Emilio: NÃO...agora...agora disse que tinha um...cumé...BIATATÁ
Entrevistadora: BIATATÁ?
Emilio: é ...na praia...biatatá diz que é uma visão dessas...dessas que vocês falam ...
L¹: sei
Emilio: invocando...a biatatá diz que é um fogo..eles vê..eles...sai aquele fogo...tchu:::
L¹: (risos)
Emilio: sapecava até gente
L²: era o fogo?
Emilio: é... o fogo... é
L²: na água?
Emilio: na praia..não...aqui na praia...na praia...é...aí ele diz...tenho mutcho medo da ...da biatatá...eu pesquei nessa praia tantos ano de noite com as...
L¹: a noite?
Emilio: é...com as luze..( )
L³: nunca viu rainha d’água...nem sereia...
Emilio: nunca vi
L³: nem ainha das águas
Emilio: é:: tinha dias que era a noite toda era...
L³ :mas nunca viu nenhuma sereia nem rainha das águas?
Emilio: não...não...pra mim ver não
L³: nem elas cantando? Nada
Emilio: pra mim ver não
L³: só história né?
Emilio: é
Entrevistadora: e não contaram mas nenhuma história não pra senhor?
Emilio: não
Entrevistadora: dessa praia daí
Emilio: não...essa praia é só o que eu vi mesmo
Entrevistadora: e lá no malhado? O senhor já pescou lá pelo marciano? Por lá...
Emilio: não
Entrevistadora: ponta do ramos o senhor já pescou por lá?
Emilio: é.. já..eu morava por lá perto...ponta do ramo é... ta vendo eu dizer que tem as ponta aqui.
Entrevistadora: mas não tem nenhuma história assim não?
Emilio: não
ENTREVISTA 4
Idade: 66 anos
Cidade: Ilhéus
Escolaridade: não alfabetizada


ENTREVISTADORA: boa tarde!
boa tarde

ENT:Qual o seu nome?
Idenice

ENT:Quantos anos a senhora tem?
setenta e seis:::

ENT: A senhora já ouviu falar dona Idenice do Boi tatá, do nego d’água?
não!? (sentido de afirmação) o nego d’água eu via o povo falar que via um vurtu em cima da pedra e dizia que era ele... NE..oh então vovô d’água...acho que era o mermo cidaDÂO...e...uma sinhora que:: sempre reclamava com a neta...ai dizia(risos) pra ela..passa pra cá minina...você não tem silanCREA ((vergonha))? Outra hora dizia você não tem cirbunanCELO? ((toma vergonha))

ENTREVISTADORES: RAFAEL LAYTYNHER SILVA E ZILNAY MARTINS DOS SANTOS

Entrevista 1
Idade: 62 anos
Ocupação: pescadora, costureira, auxiliar de enfermagem, trapicheira, atualmente aposentada.

Entrevistada: ah dona Alv... Essa amiga ta viva ainda... ói um dia de sábado... eu fui pescar à boca da noite... o rio estava seco e acari batia chifre né? Acari... eu pegava acari com água aqui ó! ((fala apontando para o joelho para demonstrar o nível da água)) Aí eu “vamos pescar Dona Alvina... vumbora”... Um samburá de bom tamanho... Quando nós chegamos (pausa) na beira do rio... começamos pescar... é vai é vai... quando nós chegamos como daqui na sua casa já o samburá estava cheio... cheio de acari... Falei Dona Alvina... Peguei... tirei a blusa repare só quem era eu... tirei a blusa... peguei o lenço que tava na cabeça amarrei aqui ((aponta na direção do peito)) fiz tipo um sutiã tapando os peito, deixei Dona Alvina andando pela beira do rio eu digo: a senhora vá e me espera lá onde a gente toma banho e eu vou por aqui por dentro do sequeiro. Quando eu andei por meio do sequeiro eu vi dois homens em pé na pedra lavava em cima. Aí eu falei ó, os dois caras em pé e o peixe (barulho ao fundo) comendo... Acari comendo porque o acari sai pra comer de noite na... no horário deles... é vai eu pego aqui pesco ali quando eu cheguei mais adiante eu tornei a olhar pra lá porque meu marido me disse assim “ó se você ver qualquer coisa que você desconfie que não seja desse mundo se for na terra você abaixa rente com a terra que o que você ta vendo ta acima do chão... E se for dentro d’água você pode fazer o mesmo que ta acima da água”... Aí é vai eu até aí não me tinha vindo isso na cabeça... É vai eu é vai eu é vai eu quando eu cheguei lá na frente já tava um em pé e um de coca... Eu olhei de cá, dois negões fortes... Ai aquele povo é besta o acari comendo e aquele povo em cima da pedra que coisa... do outro lado tinha um canalzinho que a gente passava por ele... Quando eu cheguei mais adiante já estavam os dois de coca acochado na pedra... Aí me deu na cabeça “olha o que é”... aí eu baixei dentro d’água... eles estavam realmente na pedra, mas acima do ch/da pedra aí eu falei “ai ai não é nada desse mundo”... E eu do lado de cá do canalzinho que eu tinha que atravessar com o samburá cheio de peixe aí eu já descobri já joguei a tarrafa e embolou... A tarrafa não abre... Aí eu juntei tirei e fui... Não dá pra correr num sequeiro aí eu saí andando andando andando... estão os dois lá e eu andando olhando pra eles... quando eu cheguei no porto era... era como aqui... eles estavam lá na casa de Dona Deusa ((vizinha de rua)) do outro lado do sequeiro do/canal... Dona... Alvina não tava vendo nada... Ela tava de coca assim sentada na pedra me esperando... Aí quando eu cheguei eu digo “ó Dona... vumbora” aí fui tomar um banho... Isso era umas oito horas da noite de sábado. Aí eu entrei... Estou olhando pra eles lá viu, aqui eu abaixei, tirei o sabonete daqui ((aponta para o alto da cabeça)) tomei banho... que estava já no peito que eu amarrei fiz um sutiã... Eu digo “a gente vai pra casa... Dona Alvina... olha onde estão dois homens”... Sim aí a gente saiu de dentro d’água andou uns vinte metros... E lá é um arame pra sair da beira do rio tem a cerca de arame aí quando eu cheguei no lugar eu digo “Dona Alvina, olha onde estão dois homens na pedra lá do outro lado” “Não... eles estão ali oi” ... Já estavam onde a gente tomou banho... os dois em pé... Ô garoto... já tava os dois em pé assim ó de frente lá dentro d’água... Aí ela “Raimunda vumbora correr”... Correr agora não adianta que eu vi esses homens quando eu estava lá embaixo no sequeiro miúdo... Se a gente atravessou o arame eu digo agora olhe que não vê mais... Que ela olhou... “Raimunda... como é que tu ficou na beira do rio esse tempo todo? “Eu digo vumbora rapaz já estamos saindo é vem Zequinha... um amigo nosso... “minha comadre vumbora”... Aí eu joguei esses peixes em cima do carro... Dona Alvina falou “Raimunda nunca mais eu pesco contigo... principalmente de noite”... E num foi mais não... Eu ainda fui até hoje...
Entrevista 2
Idade: 80 anos
Profissão: Aposentada

Entrevistada: forma essas nuvens assim (cheio de areia)... mas não ta chovendo ainda não é só ele se manifestando que fica muito próximo do mar... ent::ããããão daí a pouco começa trovoadas lá pro lado de Jacobina que é a cabeceira dele... então lá vai enchente lá vai enchente lá vai enchente enchente enchente e toma aquelas margens todas de água... funda né água rasa não água funda... ele é ele é valente o rio Itacupiru... então... começa a descer cavalo morto outro arriado com cela e tudo sem dono sem nada é só o cavalo... casa... papagaio... papagaio DÁ CÁ O PÉ LOURO DÁ CÁ O PÉ LORO ((risos))... lá na margem do rio que tava fundo... subia no tronco de pau...( )... e a::íííííí a história do rio Itacupuru é essa aí... água amarela... água preta... tudo é água desse rio... quando ta enchendo...

Entrevistador: A senhora fazia o que, era pescadora?

Entrevistada: Não eu morava assim na beira do rio Itacupuru... a roça do meu pai era na beira do rio Itacupuru...

Entrevistador: e a senhora já viu algo diferente... sem explicação...

Entrevistada: não.

Entrevistador: A senhora conhece história de Nego D’água?

Entrevistada: A mãe D’água... conheço a história da mãe D’água... mas mãe D’água nunca vi mas tem Mãe D’água... tem ará/sucururu... uma cobra enorme que pegava os bezerros e fica puxando pra dend’água... isso tudo no rio Itacupuru...

Entrevistador: e como é a Mãe D’água?

Entrevistada: a Mãe D’água é a rainha das águas... ninguém vê ela não... quem dizer que ta vendo Mãe D’água... agora a Mãe D’água é á água... a água mesmo correndo...

Entrevistador: E a cobra?

Entrevistada: A cobra é uma cobra terrível... ela fica dentro do poço e pegando o que ela encontrar na frente... é gente é tudo... pega pra ela lá... Sucururu... e a história do rio Itacupuru que eu sei é somente essa... tem poços enormes tem peito... tem camarão... tem piranha que a gente ficava que a água dele é clara quando ele ta no normal dele a água é clara e tem as piranhinhas que ninguém pode nem entrar que as piranha morde ((riso)) ... e a história do rio Itacupuru é toda essa que eu sei.






Entrevista 3
Idade: 75 anos
Profissão: Trabalhador rural aposentado.


Entrevistado: Já me contaram de nego d’água... Que um rio que tinha muito nego d’água... Aí o cara pescava, né? Pescava e tal ali no rio aí um dia apareceu um negrinho assim... puxou na beira da canoa assim pra afundar a canoa... brincando assim... aí ele chegou tava com um facão passou no braço cortou o braço do negrinho... Né? Aí com poucas horas... Apareceram tantos negros d’água que ele já ia chegando do outro lado... já ia perto dele chegar... Aí ele pulou em terra nunca mais pode pescar nesse rio por que não deixaram... Não deixavam não... não pôde ir mais no rio porque os negrinhos/os negos d’águas não deixavam não... Parece que foi no rio do (bu)... rio do (bu) é em minas...


Entrevista 4
Idade: 65
Profissão: Aposentada

Entrevistada: Uma vez tinha dois pés de dendê, aquele dendezeiro que todo mundo que chega corta um cacho, ninguém reclama né? E em tudo que você tira aquela palha velha aquela bucha né? Ai meu pai tirou muito dendê naqueles pés. Ai eu vou pescar um dia... a lua bonita menino a lua vinha saindo assim... umas 10 horas da noite antes dela sair eu saí pro rio... vou pegar uns acari... o cavalo o porto do cavalo é assim do lado de cima é uma pedreira lá fora tem outra pedreira e entre as duas pedreiras uma parte funda, então o peixe sai pra comer no ra::so eu dava um lanço tirava dez quinze acari de uma vez a tarrafa saia você botava em terra.... nesse dia eu fui só pescar “não vou chamar ninguém não o povo não gosta, ai fui...quando eu cheguei nesse lugar... eu desci por ali pela beira do rio eu vim pela beira do rio quando cheguei ali joguei a tarrafa e os próprios acaris desembaraçam a tarrafa ai quando eu olhei pra cima dois homens de branco um de um lado outro de outro entre os pés de dendê pés de dendê velho alto...continuei...tirei meus acari tudo cheguei do lado de cima a tarrafa torceu que eu olhei eu vou ter que voltar? Não da pra voltar pelo mesmo caminho porque enquanto você não desconfia que aquilo não é gente você passa mas quando você desconfia você já não volta mais... ai eu disse bom agora eu vou subir... subi... subi... subi... cheguei adiante cortei beira de rio tem sempre uma passagem não tem? Ai tem uma estrada onde os meninos tiravam areia carregavam no carrinho de mão...cheguei na rodagem vim embora a lua bonita eu falei quem tava lá não ta mais aqui e quem passa na rodagem os dois pés de dendê é do lado de baixo também eu nem olhei pra lá. Nessas alturas eu levava dois três dias sem ir pescar...

ENTREVISTADORES: Ana Mathilde Carmo, Camila Vasconcelos, Larissa Cardoso e Maristela Carvalho

Entrevista 01,
60 anos, Itabuna, setembro de 2009

- Eu me chamo... Gildo, morador... e filho... do “Barrio”... de Fátima... tomei muito banho nesse rio... esse rio tem muita len::da para contar, esse rio cachoeira, - a qual... o bairro de Fátima... era chamado de cajueiro, porque a única localidade que tinha de pé de caju, era aqui no Bairro de Fátima, então... era... chamado de cajueiro... foi passando o tempo os português chegaram aqui no bairro... e trouxeram a imagem de N. Srª.... De Fátima... e implantaram... uma capelinha, nessa capelinha fizeram uma igreja... Eles... botaram uma empresa de ônibus... chamado empresa N. Srª. De Fátima... criada aqui no bairro de Fátima.. e daí criou o nome do “barrio”... Fátima, que o bairro o nome não é Fátima é bairro N. Srª. De Fátima... registrado nesse nome. - Mas esse lado aqui do rio... tem muita história para contar... tinha um grande pescador... que ele sempre pescava... e o outro pescador... tinha inveja dele... então todos dois eram mentiroso... aí um falou “Ô ‘cumpade’, porque você não foi pescar mais?”, aí o outro falou para ele... “Olha ‘cumpade’ eu não vou mais pescar mais nesse rio... estou deixando a noite... pescar pela noite porque... passa um camarada... toda a noite andando por cima da água, pescando e andando por cima da água e aquilo me meteu medo... eu ia com a lanterna, olhava, via esse cara andando... e aí eu não fui mais pescar de noite, só pesco pelo dia.” “Não ‘cumpade’, pode continuar pescando... porque foi até bom o senhor contar isso, porque se se eu contasse ninguém acreditava”, aí o “cumpade” perguntou “E você também já viu?”, ele falou “Não, só queria que o senhor contasse isso para todo mundo porque aquele camarada... que anda em cima da água... é eu.” Então era dois mentiroso, um mentia... e o outro aumentava a mentira, e aí foi um ca/um “causo” muito interessante, muito alegre pra quem gosta de ver essas, essas passagens do nosso rio Cachoeira... nós tinha também aqui no posto Tubarão.... as lavadeiras diziam que tinha uma mão cabeluda... que essa mão quando a mulher ia entrar dentro d’ água tinha muito cuidado pra mão não passar nas pernas delas, mas não tinha nada de mão cabeluda... era um criolo que tinha um fôlego muito grande ficava mais de dois minutos debaixo d’ água... ele quando via as mulheres lavando roupa que a parte do corpo dela ficava dentro d’ água, ele mergulhava LÁ na baronesa atrás de umas pedras vinha mergulhando passava a mão nas pernas da mulher e voltava... e a mulher quando olhava via que era preto falava que era uma mão cabeluda... e são “causos” desse rio, muitos contos desse rio que existe, outro também é do nego d’água que disse que via um nego d’água... que era um caboquinho... que ficava, o povo até fazia pedido, fazia prece pro nego d’ água ajudar, pra trazer muito peixe, para:: o rio quando tava seco trazer mais água pro rio e aí tem muitas lendas desse rio, esse rio é chamado rio cachoeira porque quando tem uma enchente em dois dias o rio seca porque, porque ele tem uma grande queda e essa queda se transforma numa cachoeira, é por isso que o rio chama rio Cachoeira, outro “causo” importante do nosso rio, que é uma história muito bonita ... aLI... aonde fica... a::... ( ) do vereador, a câmara de vereador, no lado do/no meio do rio, ali na beira rio, ali tem uma ilha, chamada ilha do jegue... essa história do/da ilha do jegue muitos sabem que os camaradas antigamente pegava areia... os areiros... que pegava ali na ilha do jegue, botava o jegue naquela ilha, certa vez o rio encheu, foi enchendo e o jegue ficou lá... na ilha, aí o rio foi enchendo, foi enchendo, foi enchendo e o jegue lá e o areiro não pode tirar, e aí o rio encheu... e terminou o jegue só ficando com a cabeça do lado de fora e o jegue desceu, e aí ficou apelidado... de ilha... do jegue, é ali aonde fica aqueles pássaros bonitos, aquelas “gauças”, fica ali que hoje, as “gauças” pelas fezes das “gauças”... é:: os bambus se acabaram e a mata ali que tinha ali na ilha se acabaram, mas tem muitas histórias fora essas... tem outras bonitas também, eu vou deixar por aqui, eu tenho 60 anos de idade, é.. nasci aqui e tenho muitas lendas pra contar sobre o nosso rio, o nosso rio é maravilhoso... é PEna nós olhar para ele e ver a destruição pela poluição... é:: pelas pessoas jogar lixo, jogar garrafa... é térmica, garrafa plástica de tudo, e fico::u um rio poluído assim, eu sinto tristeza porque era um rio que eu tomava banho... era o rio que eu brincava... inclusive a uSIna asfalto, a uSIna elétrica era ali... no rio Cachoeira, nós somos fornecidos muitas... muito tempo a iluminação pelo nosso rio próprio que era o rio Cachoeira e foi tirado dali, porque veio outra fonte de energia para a nossa cidade, que hoje nós temos uma grande iluminação... que vem lá de Pau/Paulo Afonso parece... e:: nós “tamos” aí com essa riqueza, mas o rio está sendo pobre por causa da poluição... muito obrigado.

Entrevista 2, 69 anos setembro de 2009

D. Giorgine: -- Meu nome é Giorgine... Ribeiro Belém... e::u moro aqui há... trinta e nove anos... tenho se::ssenta e nove anos... próximo vinte eu vou fazer setenta, com fé em Deus, e::... as histórias que eu se::i assim:: de cantos de águas... são as que a gente escuta sempre dos pescadores, né?... Fala-se do boto verme/boto rosa, né?... Que era um rapaz muito bonito, que encantava as moças... e depois::... elas... ( )/de encantadas com eles, elas... terminavam até engravidando, né?... Assim, são as histórias... e:: também a da sereia ,né? Que a sereia também diz que era uma moça muito bonita, que também CANta muito bonito... e encanta as pessoas com seu canto, as pessoas se atraem pelo canto da sereia, e vão atrás dela, chegando até a... a entrar no mar e não sair mais... Essas histórias que a gente escuta dos pescadores, não sei se são verdade né?... Mas... enfim, são lendas, né?... E lenda a gente sabe que não é... uma coisa verdadeira, mas é uma fantasia... e fantasia é sempre uma coisa bonita... uma coisa que atrai as pessoas... Mais?... “Tá” bom?
Entrevistadora: --Tem mais alguma? Se a senhora tiver pode contar mais.
D. Giorgine: -- - Aí é fora d’água, aí já é história de lobisomem... Bom...história de lobisomem minha mãe acreditava, né?! Ela contava muitas histórias de... as pessoas... daquele tempo, né? Que não eram casadas... e não tinham fé em Deus também, é:: se transformavam num bicho parecendo um cachorro e atacavam as pessoas...minha mãe contou que uma vez lá no sertão que ela morava, ela disse que não foi olhar, mas diz que o pessoal foi e diz que o cara... é:: apareceu com um bicho morto... né? E aí quando foi ver era uma mulher, que ela tinha sido transformada... transformou em gente da cintura para baixo, da cintura pra cima ficou... feito cachorro... bicho... -
Entrevistadora: -- Um::... e a senhora ouviu falar alguma histó/alguma história de poço né? Que às vezes o pessoal fala, de rio?
D. Giorgine: -- De rio?... Eu não “tô” lembrada agora... rio só das enchentes mesmo e as enchentes são muito pesadas, mas assim de fantasia, de beira de rio, não...
Entrevistadora: -- Não né? Então “tá” bom, D. Giorgine, muito obrigada e bom dia!
D. Giorgine: -- Bom dia!


64 anos – Entrevista 03
setembro de 2009

D. Maria: -- Maria da Luz Martins, morava na Fazenda Arco Íris... município de (São José), acontece que sempre ia pescar... em um poço, mas aparecia sempre uma coisinha assombrando... mergulha::va, levanta::va com olhos grande e aquilo ali assustava a gente saía picotando o poço, era o nego d’água, ele era parecendo um boneco... era parecendo um boneco, ai levanta::va, mexia assim na água, quando a gente começava a olhar, ele mergulhava, lá na frente tornava... fosse aproximava ele sumia... ai:: ia tomar banho, acontecia que:: aquilo pegava pelo pé e chamava pelo fundo do poço e tinha que ser bom nadador, porque senão descia pro fundo do poço.
Entrevistadora: - E a senhora já viu?
D. Maria: -- Já!
Entrevistadora: -- Um:: muito bem... e tem alguma outra história além dessa do nego d’água?
D. Maria: -- Não.
Entrevistadora: - Só essa que a senhora sabe?
D. Maria: -- É.
Entrevistadora: - “Tá” bom, obrigada, viu D. Maria?
D. Maria: -- Eu me lembrei de uma... tem uma serra MUito a::lta onde tem um (rio) lá, um córrego, e nesse córrego sem:::pre aconte::ce passar::, tem uma coisa sentada em cima da pedra, só que brilha muito... e aconte::ce que assusta também muito o povo... porque o pessoal quando chega perto do lago... aquilo some... as criança vão pro lago tomar banho, chegam gritando, gritando, “Que foi meu filho? Que foi que aconteceu?” , “Que é? MÃE, vem ver que coisa ta ali na pedra, mãe que coisa ta ali na pedra!” ,que quando chega o negócio sentado ali em cima da pedra, aí desaparece, só vi aquela coisa brilhando mas ninguém consegue pegar... e o pessoal, UNS diz que é:: o::uro, outros diz... que não é ouro, é:::... é um bichinho parecendo um rati::nho... e aconte::ce que ninguém descobriu ainda o quê que é, mas com certe::za que isso ai deve ser ouro... porque é muito bonito... desaparece, quando vai pra pegar desaparece... ai o pessoal diz que é ouro.
Entrevistadora: -- E a senhora já viu?
D. Maria: -- JÁ vi:: eu passei assim na estradinha que ia pra casa duma amiga e quando ta aquela coisa mais linda... aí chegou perto... sumiu! Desapareceu, ninguém conseguiu, ninguém consegue levar a mão... várias pessoas já foram lá ver, mas que quando... aí desaparece, só porque aquela coisa bonita quando desaparece, a coisa mais linda do mundo, ninguém pode tocar a mão...
Entrevistadora: - “Tá” bom D. Maria, obrigada viu?
D. Maria: ((risos)).


Entrevista 04,
84 anos, outubro de 2009


Sr. Osmar: -- Acontece que a gente diz que viu a sereia, “Óia,” eu nunca vi, desde a idade de oito anos que eu trabalho e mar afora... conheço nosso país e conheço algum país lá fora... NUNca vi essa sereia, mas dizem que tem, que tem nome, quem tem dono, né? Ela não fazem a festa aqui né? num faz no rio, então deve ter, agora ninguém quer dizer, que nem papai do céu quem que já viu nem sombra? nós todos acreditamos que ex/existe né? que é superior... né?
Entrevistadora: -- E fala que como é essa sereia?
Sr. Osmar: -- A sereia diz que a metade é PEIxe e a outra é “mulé”... e siri é bicho pequeno que só come na ponta do pé ((risos))... a sereia não se come, se enfia de “cole”((gargalhadas)), o nego d’água, por exemplo, quando eu era criança, a gente no Sapetinga, tinha um que pulava dento d’água quando via a gente, diz que era três neguinho... e aí acontece o seguinte, eu sei que a gente via fazer assim TUM TUM TUM e aparecia os três né, que a gente via, via, agora aparecia os três aqui na Sapetinga, isso num foi só eu que vi não, várias pessoas viu essas coisas aí, esses mulecote, várias pessoa viu aí, mas dizer a verdade que eu vi, não, eu vi a assombração... - agora o lobisomem existiu aqui no Pontal. -
Entrevistadora: -- Existiu?
Sr. Osmar: -- Existiu. Serve pra vocês?
Entrevistadora: -- Serve, pode contar o que o senhor quiser.
Sr. Osmar: -- - Eu morava ali, onde fica ali, onde tem o frigorífico ali ((aponta em direção ao frigorífico)), num tem o frigorífico ali? Ali chamava a rua das sete casas, sete casas... naquele tempo que eu era novo, tinha uns dezesseis anos mais ou menos... aí eu vim da maré com a tarrafa... fui pra casa, quando cheguei em casa me deu uma vontade de comprar cigarro né?... aí eu fui comprar o cigarro, quando eu vi aquele cachorro GRANde, num vi o rosto não, só vi ele com a “cacunda” e assim né? a orelha reDONda, naquele tempo eu era novinho né? mas era destemido, peguei a pistola 765 e dei três tiros nele.-
Entrevistadora: -- E matou?
Sr. Osmar: -- - Não... ele saiu reclamando rum, rum, rum, desapareceu, a roupa ficou que num tinha quem que ficasse dentro de casa... aí minha mãe veio com outra ROUpa, deixou lá do quintal sabe? Eu tomei um banho e vesti aquela roupa e fiquei dentro de casa, agora os outros homem diz que viu né? -
Entrevistador: -- E o neguinho d’água que o senhor falou? O senhor sabe como que ele era?
Sr. Osmar: -- Era, era um jeito de menino ele... num tinha cabelo não... olha... eu vi também... eu e mais algumas pessoas também teve a oportunidade de ver, que essas coisas assim nunca aparece pra todo mundo né? nunca aparece pra todo mundo, agora lobisomem existe, dei três tiro ali ((risos)).
Entrevistador: -- E o senhor conhece mais alguma assombração de água?
Sr. Osmar: -- Não, de assombração não, na ocasião a gente tava ali na cidade de Santa Cruz, Santa Cruz Cabrália... fora né? quando a gente viu, viu aquele navio boni::to... aí eu tava de quatro, chamei meu irmão que era o mestre ( ) o navio veio em cima, o navio veio em cima, (e veio navio e veio o navio) alguns minutos depois, o navio já apontava LÁ sobre o norte afora e vinha certinho aqui com a gente, não desviou o caminho e ninguém viu esse navio passar, quando viu ele já tava lá na frente... e isso alguém viu também, já viu, viu em Belmonte, fora de Belmonte, pessoas que pescavam ali, (diz que o navio) aparece e desaparece assim de uma hora pra outra, quando a gente ver já ta lá na frente, isso existe, esse eu vi.

Entrevista 05,
61 anos, setembro de 2009

D. Vitória: -- Nasci, eu nasci e me cri...ei na roça, meu nome é Vitória ( Martins) dos Santos, quando eu eu tinha idade de nove anos, quando eu morava lá pra dentro do Arco-Íris, hoje eu moro aqui na Monte Alto no bairro de Fátima, mas com idade de nove ano, meu cunhado sempre falava que na Lagoa Encantada tinha um “encante”, era um neguinho d’ água, eles foram pescar, aí, quando eles “oiaram” viu um neguinho e disseram “ó menino vamo capar aquele neguinho”, aí um disse assim “nã::o... nã::o rapaz, deixa o neguinho aí quando jogou... a rede, aí suspendeu a rede cheia de peixe, enganchou, ai o rapaz desceu pra desenganchar a rede, quando desceu e demorou que subiu, ele viu aquela (pista) de sangue, era o rapaz, invés de capar o neguinho, quem saiu capado, foi o homem.
Entrevistadora: - É verdade?
D. Vitória: -- É verda::de, e porque tem muito tempo que ele contava. Eu era menina! “Tô” com sessenta e um ano e nunca esqueci dessas história... da lagoa encantada.
Entrevistadora: - Tem alguma outra história?
D. Vitória: -- Ti::nha, diz que tinha uma chave, que essa chave também vivia só balançando, o pessoal disse quando ele caí:::sse, que a lagoa ia desencantar, agora até ho::je ninguém... ver essa chave cair, mas desde “d’eu” PE-quena que tem uma chave lá... impendurada.
Entrevistadora: -- Um::, muito bem, tem alguma outra história?
D. Vitória: -- Olha, eu acho que mudou tudo, tenho vontade de ir lá pra conhecer, já tive uma vez e dessa semana até a outra eu quero ver... que eu tenho vontade de ver se é verdade mesmo, se essa chave “tá” lá. ((risos))
Entrevistadora: - E são só essas dua/essas duas histórias mesmo que a senhora sabe ou tem mais alguma outra?
D. Vitória: -- Nã::o, tem mais história também lá:: da fazenda Arco Irís... que tinha um poço... e meu irmã::o... também era meio assombrado poço lá da Cachoeira... e a gente (vivia) chegava pra pescar e tinha um bichinho e ficava... parecia... ninguém sabia se era uma lontra, ele dizia que era assombração, mas no fundo era uma... uma::: lontra, meu irmão mesmo, muita gente corria desse poço, dalí da cachoeira.
Entrevistadora: - Lontra é o que?
D. Vitória: -- Lontra é um:: bicho comprido, que come peixe, então ela mergulha, quando vem com o peixinho, fica com as duas mãozinha só a cabecinha, aí as “pessoa” entretida pescando, quando via aquela cabeça “oiando”, baixava, tornava a subir, aí um dia a gente corria, largava lá, dizia que era assombração, que era aquilo, depois descobriram que era uma lontra. ((risos)).
Entrevistadora: -- A::: interessante, e aí... tem mais alguma?
D. Vitória: -- ( ), tem muitas coisa, (sem contar) né? De... de “encante” de á::gua que as pessoa ver né? muita vezes as pessoa tá pescan::do, sai assim pra tomar banho naqueles po::ço, ver gente canTAN::do, e as pessoa fica assim... invocada, olha prum canto, olha pro outro, tem gente que fica insistindo pescando né? e outros vão embora contando que viu isso, aquilo outro, no fundo do poço, viu cantando, e outros corre mesmo...
Entrevistadora: --Tá bom dona Vitória, brigada viu? Bom dia!
D. Vitória: ((risos))

ENTREVISTADORES: Givanildo Santos, Geliane Alves e Aparecida Freire).

Entrevista 1

Dona Maria é uma senhora de 70 anos, estudou até a 4ª série, habitante da cidade de Itajuípe. Ela é dona de casa e através de algumas perguntas foi contando um pouco sobre ela, como também outras situações referentes ao imaginário, não necessariamente sobre o imaginário das águas. Através da entrevista de Dona Maria é possível identificar algumas expressões “arcaicas”. A pergunta inicial se refere à vida de Dona Maria de uma maneira geral. Abaixo segue a entrevista numa única fala, a da própria entrevistadora.

Dona Maria: Não, saí (de Itajuípe) criança, aí nasci aqui e me criei fora, casei e voltei e to aqui até hoje. Aqui é minha terra, nasci aqui só que não me criei aqui.... muita coisa que aconteceu aqui eu sei. Teve aquela.. sabe a época que eles fizeram aquele filme? Fizeram um filme lá quem vai pra praça da feira velha ... só que eu não participei né? Fizeram um filme... Mas Itajuípe era uma cidade boa, mas Deus do céu, a terra ta acabada... No tempo que tinha cacau né? Todo mundo ganhava dinheiro com cacau e usavam aqueles cintos de ouro, o fruto de ouro que era o cacau né?
Já tinha lavadeiras, as lavadeiras, lembrei de minha mãe... (Ela canta) Oh lavadeira... Aí fizeram um teatro aqui, aí fica cantando, cantando cantando...Aí Fernanda, ô vó e a senhora sabe dessas...? Eu digo, minha filha, isso é do tempo que eu era criança, sei. Aí chegava as lavadeiras...aquele monte de mulher lavando, a roupa ia ficando com goma, hoje em dia não sabe nem o que é goma...
A goma é aquele pozinho de mandioca... bota pra secar, quando a gente vai fazer pra colocar na roupa, bota a água pra ferver, dissolve ela na água, coloca parafina, querosene, perfume e limão, aí faz aquele mingau, agora bota na água e coloca a roupa, aí bota pra secar e depois passar, hoje não existe mais não, ninguém nem sabe o que é, você nem mesmo sabe... Antigamente a gente colocava em terno branco né, pra formatura.. ah já teve muita festa gostosa aqui... tudo de goma!
Olha, quando fizeram aquele lago, Renaildes tava com seis meses, eu vinha que eu morava na fazenda, eu vinha com ela de um lado olhar os trator tirar aquela mata e derrubar as taboa, ali era tudo taboa, não tinha nada de água, você não via nada de água... Era mato ali meu filho, ali era mata! Tinha só taboa.... Isso tem 40... Renaildes tem 41, 43 ou 44________Alí tudo era mata meu filho, a estrada era por lá pela Nova Itabuna, a estrada era por ali, era tudo mata... eu vinha toda tarde olhar os trator derrubar a mata...
Foi no tempo de Dr. Humberto Badaró.. pai de Gilka né.. ? E hoje a gente quando vai pra Itabuna passa por ali... e ali tinha uns pé de alecrin...e vê aquela ruma de água e não tinha nada daquilo e hoje a gente passa e eu fico assim olhando...... o tempo passa rápido né meu filho..? o tempo passa rápido... pois é... (Pergunto sobre imaginário) Ah... aquela tipo, Mula sem-cabeça, lobisomem... lobisomem diz que existe, eu acredito que existe, agora mula sem-cabeça é lenda... A caipora diz que existe. Agora, a caipora existe porque uma irmã minha, a caipora já pegou e levou pra dentro de uma mata, e era tudo minina.. tudo brincando..a gente foi comprar, a gente foi comprar não sei o quê numa venda. Era uma cidadezinha perto de Jacarandá que Tinha uma gruta ..que se chamava pedra de amolar... Aí ela foi com a gente, quando a gente voltou não viu mais ela, ela sumiu, aí papai ficou procurando, procurando, procurando...aí chamou ela, e ela se chamava joaninha.. ai gritava , Joaninhaa?!? E ela fazia.....hãmm, Joaninha, e ela.. hãnnn...... aí meu pai entrou pela mata ela tava dentro de uma gruta, com a água por aqui, aí perguntou: Quem te trouxe aqui? Ela disse foi a mulher com uma perna só.. a caipora.... achou ela com oito dias de perdida... chegando em casa ela mal meu filho, no outro dia ela morreu.. acho que ficou muito tempo debaixo d’água né... e é por isso que eu acredito em caipora.. agora fantasma existe meu filho, fantasma existe...

Eu ouvi comentários que uma mulher de sete metros apareceu em Itabuna, será que isso é verdade?
...Nessa vida acontece muita coisa...Tem de tudo né? Agora diz que acontece isso mesmo.. Olha, meu avô e minha mãe me contava, que meu avô gostava muito de xingar, como era o nome da mulher? mas diz que xingava mesmo, uma vez ela disse assim, olha um dia você ainda vai ver um troço de tanto você chamar por essa mulher, diz que xingava, aí diz que ele adoeceu né? Aí tava doente, aí minha avó ela fazia mingau pra botar pra ele, botava com aquele leite em caixinha, minha avó comprava e ai meu fio minha mãe entra no quarto tá aquele negócio feio em cima dele assim.. feio seco ai depois ele morreu... Hoje em dia não aparece mais não ...

Teve aquele caso em ilhéus né.. a menina que colocava fogo na casa que o padre aqui de itajuipe foi lá ... e.... pois é.. (...) Meu pai não era daqui não, nem minha mãe, já morreram, também. Existe muitos casos desses que acontece, sei lá. Existe muitas coisas nessa vida. Hoje em dia não aparece muita coisa porque a geração ta muito grande, o povo perdeu a fé de Deus, antigamente se rezava muito né.. fazia muita oração... Hoje em diz não existe isso mais não, de tudo..Ah esse negócio é do tempo de Adão! Mas né não meu filho, quem tá em oração tá em sintonia com Deus, se você tá em oração você tá em sintonia com ele... Ah, anteontem eu vinha subindo alí a ladeira do Baneb e tinha uma senhora com a mão assim, eu fui pro meio dela, o quê que há garota? Tá com problema? Ela olhou pra mim... nunca fique assim, saia, caminhe, converse, vai em casa, pegue sua bíblia, reze o salmo, o salmo o senhor é meu pastor e nada me falta..não fique assim, porque ali a mente, o incardido fica ó... a menina que se afogou ali, você soube? Que se matou? O menino que tava falando, eu nunca que se esqueci. Se um coisa acontecer, você reza,pede a Deus, bate um papo, conversa, mas nunca fique assim, não gosto de ver ninguém assim, e ela tava com problema, vá pra casa minha filha, reza, desta que eu vou rezar por você também, reza que seus problemas acabam... Não sei, um negócio assim me chamando, eu não gosto muito não. Às vezes passando assim, eu olho pra um pessoa, uma coisa assim , sei lá, aquela coisa, eu sinto que aquele pessoa não tá bem, aí eu me aproximo, começo a conversar, a pessoa vai se abrindo, se abrindo, reze meu filho, reze que Deus ajuda a todos nós, se você reza você tá em sintonia com Deus. Se você sair da sua casa, primeiramente em nome do pai, do filho e do espírito santo e Jesus que me acompanhe e nada mal lhe atrapalha. Eu reclamo com Fernanda, Fernanda sai assim... Volta! Se benze! Entregue a Deus quando passar em frente uma encruzilhada...Eu nunca passo numa encruzilhada dessas, eu nunca passei, mesmo se... ali tá tudo o quanto não presta, você tá com o corpo aberto, não reza pro anjo de guarda, tá fraco, é um negócio que você pega, espírito ruim existe, existe tanto de espírito mal olhando pra gente, que a gente não tem o poder de Deus, se você tem oração e se apegar com Deus e diga meu Jesus você me acompanhe, o resto p eu não saio daqui alí sem falar com Deus..eu quando boto meus pés no chão...vocês que são jovem, rezem pro seu anjo da sua guarda, o anjo da guarda estando forte nada mal lhe atinge. Eu já vi meu anjo de guarda, quando eu era garota eu vi, ele tem asa, roupa azul, branca.. eu rezo pro meu anjo de guarda três vez.. de dia, meio dia e de noite... reze pro seu anjo de sua guarda... depressão é o que a depressão? Depressão é falta de oração.. você é jovem, você cuidado...
Medo nunca tive... mas que existe eu acredito agora medo eu não tenho porque eu acredito em Deus... Agora meia noite é hora do que não presta na rua.. meio dia, seis horas e meia noite não saia meu filho.. ou saia antes ou depois... mas nessas horas não... mas vocês são jovens, não entendem nada não.. (RS) Mas sabe o que ocorre!?! .. A tecnologia do mundo hoje, do mundo novo deixou todo mundo mais assim sabe? Não tinha sabão em pó, só tinha sabão em pedra... não existia detergente...não existia luz...não tinha carro... então não tinha nada disso. Olha na época era candeeiro, aladin... é aladin, eu tenho até ali uma parte de um que o vasilhame quebrou ai ficou o vidro de cima que bta a camisinha pro fogo... O candeeiro é aquele da vasilha em baixo e bota o pavio com querosene embaixo..
Antes não tinha esse negócio de droga.. não tinha ladrão.. só ladrão de galinha né..rsrs que antigamente nem delegado tinha. tinha era inspetor... aquele que era tempo bom.. as vizinhas todas se conheciam.. a gente mandava matar uma galinha que cozinhava dava um pouquinho pras todo mundo na rua.. hoje ninguém reza mais hoje ta tudo virado... antigamente mulher não trabalhava.. ficava era em casa cozinhando, cuidando dos filho, quem trabalhava era o homem.. se mulher quisesse trabalhar era assim costurando, sendo professora... até que era a mãe que cuidava dos filho né... todo mundo sentava na mesa e antes de comer rezava.. hoje? Deus me livre... isso meio dia né.. a noite a mesma coisa...
Me chamar de você? Não aceito.. minha criação não foi assim... respeito é importante meu filho... Ouxi.. as moça casava pra viver... se a moça fosse falada ela não conseguia marido.. se casasse e não fosse virgem... o marido vinha na porta do pai dela no outro dia pra devolver... essas roupa de shortinho antes era de prostituta.. hoje é uma mistura braba você não sabe quem é casada quem é solteira quem é viúva, é tudo igual... so pra você ver dez horas menino em rua? Não ficava... hoje é meia noite eu vejo os meninos passarem aqui...
Minha filha Renaildes quando chega aqui que abre a geladeira não pega nada sem perguntar de quem é.. e isso meu filho é respeito... e já bati muito em minhas filhas... antigamente resolvia.... hoje você dá um tapa num moleque a policia ta em sua porta.. como é que educa? Tem que saber criar filho... Alexandre meu neto ... pegou umas moedas em minha bolsa, eu não vi... Renaildes viu e perguntou... “ você pegou aonde?” e ele disse.. “ eu vou pedir pra vovó”.. ela pegou deu uma sova, nunca mais ele buliu... e se você for olhar os pais nun deixa de ter responsabilidade com os fillhos depois que crescem não, não é de dar dinheiro e nada disso a não ser que precise né, a gente ajuda..... tá vendo meu filho que ta no exercito.. quando liga é assim. “ bença mãe”.. é uma questão de criação meu filho.. e olhe que eu bati demais viu... pra educar... eu faço oração direto.. pros filho, pros neto..
Ela disse viu (Dona Maria retorna a falar sobre a caipora)... Era assim uma mulher de uma perna só.. era uma mulher... é.. uma perna só... e hoje tem muita vaidade no mundo.. muita gente diz até que não acredita... mas eu digo que acredito porque pegou uma irmã minha, e ela morreu... sim e diz que quando pega assim você tem que virar a camisa do avesso e vestir.. isso se você não tiver com um dente de alho no bolso... antigamente o povo quando chegava da roça vinha era com um dente de alho no bolso.. pra se livrar dela.. ai diz, as pessoas de idade diziam que ela fica assim .. “ escô ... ! .. “ escô ... ! .. “ escô ... ! .. “
Mas você sabe o que acontece..? Com a tecnologia né muita gente não acredita... ai engana a pessoa em qualquer lugar.. na rua não mas em qualquer matinho assim.. ai tinha seu Raimundo que vinha da roça e por onde ele passava tinha um laguinho assim né.. e ele disse que olhou so via mato.. tinha sumido tudo, diz que ela faz um mato assim na sua frente ai ele teve que voltar.. chegou la tava contando pra gente...se continuasse se perdia então teve que voltar...
A maior oração do mundo é o pai nosso que Jesus nos ensinou.. você reza o pai nosso pro seu anjo da guarda e nada de ruim te acontece...
(Pergunta sobre a enchente que ocorreu em Itajuípe) Eu não sei meu filho, acho que não. Ficou muita gente lá na igreja. O helicóptero pousava aí pra trazer comida pras pessoas...eu não comia porque... não sei acho que Deus me orientou. Antes da enchente, eu fiz uma fera, que eu não estou acostumada a fazer feira direito porque eu já vivia na rua né? Mas nesse dia não sei me deu na cabeça..comprei bastante farinha, comprei bastante carne, comprei açúcar, tanta coisas, aí Fernanda falou: Mãe pra quê esse tanto de comida? Eu disse: deixa aí... Rapaz, não passei fome, não pedi nada a ninguém, três dias com comida dentro de casa. Apôs, ela falou: Mãe, vem cá, por quê a senhora deu aquela veneta de comprar tanta coisa? Alí foi enchente, eu passava ali quem vai pra Itabuna com a água por aqui. Acho que eu não sei se tiraram foto daquela enchente, também tantos anos né... Apôs, quer dizer que vocês estão fazendo trabalho né?
Eu posso contar muitas, já estou velha, vocês são crianças. Hoje o mundo tá tão feio, tem jovens que ouvem a gente conversar, porque... Olha, minha avó me disse, quando eu era garota, mas hoje estou velha, quando eu tinha meus cinco pra seis anos, eu perguntei assim: Ô minha avó, o que é papa? Ela disse: Ah minha filha, o papa é um sucessor de Deus, o primeiro papa foi São Pedro, e ele ninguém vê ele, agora quando tiver perto do mundo acabar ele vai sair e você vai ver. O tempo passou né? Ela faleceu, me casei, me criei, tive filhos. Oxe tava lá no Rio, aí minha filha me ligou, a mais velha: Minha mãe o papa vem pra aqui pra o Rio. Eu saí naquele dia... primeiro de outubro.. eu fui, trouxe duas camisas, usei uma e guardei a outra...olha aqui...aí é a foto dele. Agora esse papa santificou, eu tenho certeza como a palma da minha mão, pois é isso, uma camisa eu usei e a outra ficou guardada como lembrança...nunca usei... Pois quando quiser conversar comigo pode vir aqui meu filho, pra gente falar de Deus, ler um Salmo...
É ótimo, você pega o salmo 23, o senhor é meu pastor nada me falta, em qualquer dificuldade que você tiver...Toda 6 horas da semana eu rezo o terço de nossa senhora. Você sabe que ela deixou uma carta né? Ela quer que divulgue, agora eu não sei porque os padres não comunica, ela quer que divulgue.. ai daquela alma que se perder não achou a luz pra viver, eu trouxe ela no computador, mandei Fernanda botar, Fernanda leu, eu li, ela pede pra divulgar, meu filho, vai ser uma coisa tão triste, era já pra ter acontecido, vai ter três dias escuros, vai começar pela noite. Só acende vela benta e fosco bento, quando começar, quando tiver tudo escuro, fechar a casa toda com a sua família, ungir a sua casa com água benta, pegar um crucifixo, botar num...num determinado lugar, um altarzinho você acende as velas, você se ajoelha e diz as palavras, agora quando passar isso tudo, agora não seja curioso, não abra a porta pra ninguém, não seja curioso de abrir porta pra olhar. Depois que passar isso tudo Jesus vai aparecer no céu. Minha filha falou: Mãe não vai divulgar porque é obrigação do papa e dos bispos, eu digo: Minha filha, mas as pessoas que eu conhecer eu vou falar, eles estão escondendo, não pode esconder meu filho, não pode esconder, eu não quero me salvar sozinha, o que eu quero de bom pra mim eu quero pro meu irmão..Eu não rezo pra mim só, quando eu rezo pra todo mundo já fiz a minha parte...E você tem que rezar meu filho, tem que estar em sintonia com Deus, porque Deus tá em toda parte, ele tá aqui entre nós, pois é meu filho, o mundo é assim...
Apois, na hora quiser aparecer aqui pra conversar sobre a bíblia, a gente ler uns salmos aqui... Pra rezar por vocês, que Deus te abençoe!
Entrevista 2
Senhor Ataíde é um senhor de 78 anos, com baixa escolaridade, habitante da cidade de Itajuípe. Ele é pescador e através de algumas perguntas foi contando um pouco sobre ele, como também outras situações referentes ao imaginário. A pergunta inicial está relacionada ao imaginário das águas. Assim, senhor Ataíde começa sua fala:
Sr. Ataíde: Olha... têm lubisone... tem a bruxa... tem a alma perdida tem... tem o... o invocamento... que a pessoa devera de sempre de se livrar de horas mal... passear de madrugada... de horas mal que você passar numa rua.. que aquele lugar é ruim... não presta pra ir... aí vamo dar uma volta... não vamo descansar um poquinho... vamo pegar um lugar mais longe que nós chega mais perto... O pêxi... se você vai lá pa pescaria... a água escura o peixe num vê... quando a água ta suja... o pêxi só enxerga a gente por muntio perto da pisada... não? O vurto muntio perto... Mas se a água ta clara... o pêxi ta lhe vendo distante... Se você ficar em pé com uma rôpa branca pra ir pescar... (gargalhadas) Você num pega nada... O pêxi vai lhe ver (gargalhadas)... Você tem que levar o quê? Um gai de mato... Pá tapá seu vurto... Porque cum mato ele ta acostumado... entendeu?... É...
Olha pescaria é o seguinte... A noite a pescaria dá qualidade de pêxi... tem pêxi que de dia num sai... Apôs.... o pêxi se esconde também... A traíra... a traíra é igual tatu... tatu num anda de dia... a traíra também num gosta de andar de dia... só de noite... Olhe... pescaria sozinho é perigoso... a pessoa não deve andar sozinho... nem muntio apartado um do outro nem muntio junto... hã? Porque tem uma bala perdida... tem cobra... nós temos cobra que dá três dentada... dá três dentada... cê pode passar na carreira que ela morde três vez... é três bocada... dá uma na cabeça do cavalo... dá uma em cima da pata e dá outra anca... Se vim três correno junto... todos três é mordido... um atrás do outro... hã? Não se invoque não que tem sim.
Tem que ter conhecimento... tudo tem experiência... Nada neste mundo é difici... Porque este mundo é cheio de coisa... a pessoa deve de se prevenir muntio... E quanto esses negócio inventado por livro... já escrevido... vai vê queo cara que escreveu num sabe... num tem conhecimento do assunto.
Que ver uma comparação... vou lhe contar uma caso.. antigo... quando Deus andou no mundo... num foi Deus que ninguém num sabe... é caso... até o nome de Deus é caso... Pra mim o que é verdadeiro é esse aí (Aponta para a luz do sol refletida no chão de sua casa)... Se tiver outra eu num digo... inventaram né? A verdade é ele (Aponta novamente) Acredite se quiser. E lá na pescaria... quando você chegá lá... (...) Nós temos quem... São Francisco... pescador... nós temos quem... a mãe d’água... é verdade... temos a sereia... tem a mãe d’água e tem a sereia... ela fica em todos os canto... A mãe d’água pode tá aqui... pode ta den d’água... ela num só fica den d’água... como é nossa mãe...e a água também tem quem mande... olha e isso num é só pra nós não... até... até o cachorrinho... o gafanhoto...o gato... a lagata tem vida... tem saber como nós... não tem o direito de falar.... mas todos que tem vida... tem consciência... Ele sabe pra onde vai... sabe pra onde saiu... sabe o que é que ele precisa... faz as suas necessidade... hãm? Como nós se alimenta... a lagata se alimenta... e a necessidade ela faz... o cocozinho vem. Não é dizer que eu sou sábio... Então é o seguinte... a cidade de Itajuípe... temos a cidade de Itabuna... Você tá estudando... Talvez você vai chegar lá... Ma se você tiver experiência... se tiver condições... e se interessa na coisa e ter força de vontade... vai e chega lá um dia.

ENTREVISTADORES MILENA BORGES, PAULO ROBERTO E THARCILA PEREIRA

Entrevistado 1
Idade: 68 anos
Sexo: masculino
Grau de Escolaridade: não cursou a escola
Endereço: Buerarema
História: Nego D’Água
Data: outubro de 2009

HUM:::... tenho uma história que foi assim... eu tava caçando... Aí menina... eu vi um vulto... pensei que era a caça... aí saí procurando... procurando... pra assuntá o que era mesmo e no vi nada... Quando eu senti um troço me bulindo, pequenininho, peludinho e eu querendo sair... pelejando pra me soltar daquele negócio... Aí menina... eu me soltei daquilo... me destampei com ele... o NEGUIM... o nego d’água...um anãozinho avermelhado com um olho só... Aí eu atirei com minha espingarda e ele saiu pra nunca mais...

Entrevistado 2
Idade: 82 anos
Sexo: feminino
Grau de escolaridade: até a 5° série
Endereço: Itabuna
Profissão: Dona de casa, aposentada, viveu um tempo em roça e conhecia pessoas que viviam da caça.
História: Cobra D’água
Data: outubro de 2009

....ô::: meu Deus...((risos)) será que eu me alembro... minha fia... eu não nasci em Itabuna mais vim pra cá muito menina moça... Morava em roça... Tenho muita historia de roça pra contar... agora cá em Itabuna eu num trabalhava de pesca essas coisa assim não... nem minha mãe... eu pintava e bordava muito no rio isso sim... brincava DEMAIS... panhava água na cabeça, que lá em casa não tinha... ô::: sofrimento minha fia... que VIDA MEU DEUS... mais ô:::... fazer o QUE!... [eu morei na fazenda de meu tio... morei na fazenda de meu tio... e na beira da estrada tinha uma arvore e todo mundo que passava tinha medo se arrupiava... sentia aquele pAVOR ((gestos de medo))...Aí meu tio falou “ vou cortar aquele pé de arvore” e desse dia pra frente tudo de ruim que tinha na arvore foi pra dentro da casa dele atazanar a vida dele...((risos e risos))... Eu nunca vi nada... nem presenciei nada dessas coisas em rio... mar... mais uma vez eu tinha um chegado que Deus já levOu que ia caçar por essas matas todas aí e numa dessas caçadas ele repousou na beira do rio com mais dois... DIsse ele que quando madrugo que ele abriu os zói... minha fia... ((grande ênfase)) viu uma cobra gigante saindo de dentro do rio e virando um homem que se embrenhou por dentro das mata... Seu Chico tinha por volta de seus vinte anos... era moleque ainda... disse que si tremelicou tanto...tanto...era noite de luar bonito... só não viu direitinho o rosto... as vista nublada por causa da escuridão da noite... ninguém viu só ele mesmo... os outros na manguaça dormiram até o apontar do sol e ele até uns dia desse se algum perguntasse dessa história... ele contava direitinho e jurava de pé junto...é::: ...[será que serve minha fia o que eu falei... ele morreu invocado com o que viu... deve ter sido verdade... nEH!...




Entrevistado 3
Idade: 62 anos
Sexo: feminino
Grau de Escolaridade: segundo grau completo
Endereço: Itabuna
Profissão: viúva, dona de casa, pensionista, morou muito tempo em fazenda, roça, casou-se com administrador de fazenda/caminhoneiro.
História: Cobra D’Água
Data: outubro de 2009

Tenho que me lembrar aos poucos dessas histórias... eu me lembro de criança que mamãe saia com papai pra passear no cinema... aí a gente que era mais velha... eu e minha outra irmã ficava tomando conta dos mais novos... um desses dias mamãe e papai saíram e nossa irmã mais nova teimou por que teIMOU que ia brincar na rua... isso já era unas onze horas da noite e a gente tudo dizendo pra ela entrar por causa das historia que mamãe contava... tudo bem... ela ficou lá... cumpoca... só se viu neguinho entrando pra dentro de casa gritando feito louca... trancando as janelas e as portas... Isso quando deu por si já era meia noite e brincando de três marias na porta de casa... que quando sentiu de cabeça baixa uma coisa encostar na frente dela... que ela mirou pra cima... viu uma mulher enorme... gigante vestida num capús escuro olhando pra ela... quando fomos ver não tinha mais nada...Mamãe contava pra gente que quando ela morou perto de um rio em uma fazenda... que tinha uma moça que ficou prenha de repente... Ninguém sabia de quem era... labutaram... labutaram até que descobriram que era do boto cor de rosa... dizia que era um homem BONITO... bem afeiçoado... ― [Agora essa outra história tinha na fazenda onde eu morei... agora é curtinha... me contaram também...mas me contaram assim...eu morava numa casa... defronte a casona da sede... minha casa era um pouco menor... e da minha casa eu avistava uma casa lá no alto assim... num...num... ni/ um morro...aí eu:::... é:::...é:::...eu perguntava “quem é:::... quem mora ali que eu não vejo ninguém?” eles diziam que era um:::...um ex-trabalhador da fazenda... um véi... e diziam que toda... que sempre na lua nova... é lua nova meu Deus?... NÃO... lua cheia... toda lua cheia... ele cozinhava com lenha... aí toda lua cheia ela pegava os restos das lenhas e das brasa e jogava num pátio perto da casa dele e toda vez que era lua cheia é:::... aí ele ia e se espojava naquele resto de brasa... nessas cinzas aí ele virava lobisomem... e a prova de que realmente era lobisomem é que ele era MUIto pálido... tinha as unhas enormes... não olhava ninguém nos olhos e andava com o chapéu aqui... ((gestual do chapéu)) virado...ele era pálido chega era cor de cinza... As pessoas diziam nEH que ele virava lobisomem... Cê ta gravando... aí numa noite...que...eu tava dormindo... meu marido e meu filho... ele tinha o quê...meu filho não tinha nem um aninho ainda e a casa que eu morava a janela era...era/. tava podre... num lugarzinho lá... porém um podre que se desse um baque ela caia.... E eu me apavorei por que... eu dormindo e despertei com as pisada altas horas da noite... aquelas pisadonas pof... pof... pof... parecendo que fosse um sapatão de gigante... assim fofo... aí eu falei assim... eu pensei assim ... “será cavalo?”... aqui tinha um curral de animal... “será que é cavalo?”... mas não era por que eu conhecia pisada de cavalo ((ênfase na afirmação))... era unas pisada como se fosse um pesão de gigante POF... POF... aí as galinha começo a gritar no quintal... a gente tinha criação de galinha... começaram a gritar...as galinhas... aí eu acordei meu marido ((voz de sussurro))... “Eldon... Eldon... eu to ouvindo cê ta ouvindo... o que é isso?”... “eu tava ouvindo”... ( ) “o que é isso?”... ele falou “acho que é lobisomem”... ai... aí pronto eu cumedo... fiquei APAVORADA... com aquelas pisadas arrudeiando a casa de novo... cê sabe casa de roça fica assim no tempo... tinha a cerquinha lá do quintal... que era toda de varinha bem alta... mas:::... porém eu acho que ele entrou não sei como pelo portaozinho e as galinha... acho que ele entrou não... acho ele ficou por fora querendo pegar as galinhas... aí eu vi que ele tava de novo arrudeiando a casa e lá na casa tinha a garagem onde guardava o carro e ele dava aquela voLTONA lá asSIM::: pof... pof... e vinha... quando eu vi... quando eu escutei a zoada dele se espojando na parede... tchiá... tchiá... na parede do quarto e a minha cabeceira da cama... a janela ta aqui oh::: ((gestual da posição da janela))... e a cabeceira da cama assim oh:::(( gestual da posição da cama))... encostada na parede da janela... e ele ficou entre a porta e a janela ...((risos)) tchiá... tchiá... e eu chegar ouvir aquilo parecia que era dentro do quarto... ele se espojando na parede tchiá... tchiá... eu botava o dedo assim na boca pra eu ficar calada... psi... aí eu ficava orando... com aquela paÚRA... se esse bicho cai encima da gente aqui na cama...((risos, risos)) aí eu fiquei apavorada e comecei a orar... aí de repente eu ouvi as pisada dele indo embora de novo... a gente achou que era o tal lobisomem...((risos)) ― Pois é menina... na roça tem é história...((risos)) Agora de rio... lá tinha represa...um rio... os peões diziam ter visto já aparição... um amigo de meu marido que trabalhava lá com ele... na fazenda... tava passando a cavalo uma certa vez em frente ao rio... lá pelas oito... nove horas da noite quando avistou um bicho que parecia uma cobra de fogo... grande com duas bola luminosa que parecia dois olhos florescente... saindo da água arribando e caindo...diziam que era a cobra d’água...pra amedrontar as pessoas que passavam...Lá também tinha uma cobra chamada cipó... eles que me contaram néh... que tinha uma cobra cipó lá... que:::...quem passasse e pisasse nela... que ela ficava entre os gravetos no chão ela batia como se fosse uma pessoa com um cipó batendo... E aí eu dava aula e passou uns dias que o menino chegou lá na escola... passou uns cinco dias aí ele chegou... eu perguntei por que que ele tinha faltado e ele disse que foi a cobra cipó que pegou e deu uma lavada nele... disse que a cobra batEU... BATEU tanto... que ele ficou de cama... todas se a gente rumar um pau... uma pedra e não matar ela fica na estrada esperando...




Entrevistado 4

Idade: 69
Sexo: feminino
Grau de Escolaridade: alfabetizada
Endereço: Itabuna
Profissão: Dona de Casa aposentada
História: Boto Cor de Rosa
Data: 23 de novembro de 2009

É:::... vixe Maria... quando eu era pixiquitinha ouvi história... mas agora... assim... num lembro muito... quando morei... eu num vivi em lugar de rio não... quem morou era minha mãe que já faleceu... e história das água... ela já falou do boto... eu acredito apesar de num ter visto nada de aparição em rio... já vi visão... sim... voltando... é:::... minha mãe contava que vira e mexe aparecia jovenzinhas de barriga onde ela morava... minha mãe era lavadeira/ é:::... foi lavadeira uns anos... aí de vez em época de São João depois dos festejos aparecia alguém de barriga... um dia ela disse que a mãe dela proibiu dela de ir passear no rio esses tempos.. minha vó.... (( gestual de afirmação)) porque o boto nessa época de festejo aparecia... as menininhas não resistia a tentação... ((risos)) e terminava se dano pra ele... era bonito... galanteador... é:::... ninguém via o rosto direito...é:::... usava chapéu de aba cumprida... eu acredito que possa ter existido... hoje em dia num sei mais né... morava num rio... o boto mora num rio... e a mulher tano sozinha... tem que tá acompanhada/nessas épocas ele aparece... de festejo junino... pela noite e volta pro rio de manhazinha mais eu nunca vi... já tenho três filho pra que quero mais... ((gargalhadas)) inda de um bicho que vira home e some depois do estrago...((risos e risos))...




Entrevistado 5
Idade: 69
Sexo: masculino
Grau de Escolaridade: analfabeto
Endereço: Itabuna
Profissão: Pai caçador, também caçou quando mais novo e atualmente pedreiro
História: Vitória- Regia
Data: 23 de novembro de 2009

Há:::... eu andava mais na roça... sei de curupira, caipora que é coisa de mata... caçava /ia pra mata caçá preá, sariguê, tatu, porco do mato essas/esses bichos todos tanto pra vender como pra comer... costume de família... já passamos muitos dia na matas... dia e dias... ficava na mata a espreita do bicho...((voz de sussurro)) as vezes era noite sem lua e nós tudo com lampião e os saco de couro nas costa...pra dormir armava a rede... cunzinha e fazia café ali mesmo...eH MENINA...já se perdemos na mata... rodava radava saia no mesmo lugar... já escutemos voz... a nossa voz mesma... como se fosse um eco... bicho piano... rasgando por dentro das arvore... fazendo aquele barulho INHAK...INHAK...INHAK... levava cachorro com nós porque:::... tem faro bom e pressente também assombração... pra matar cobra a gente tem que mata escondido sem que ela veje...ela faz o tiro falhar e vem atrás de você...tinha que carregar fumo e cachaça pra oferecer a caipora... se ela se zangar faz a gente se perder... e a gente voltamos pra casa sem conseguir caçá um preá... dia de sexta feira era receio ir caçá a caipora geralmente aparece nesse dia... como nós leva cachorro açoita os cachorro deixando eles irado... aparece na forma de outros bichos pra espiar quem tá na mata...a noite quando nós tinha repousado pra iniciar uma/um novo dia ... isso se tinha rio por perto... exalava um cheiro forte de perfume de flor... (( indagamos sobre o que seria esse cheiro, de onde vinha e porque))é:::... a vitória-régia... né...soltava um cheiro forte mesmo... uma flor que na noite fica branca e de dia mei rosada... ((perguntamos que flor era essa)) DIZIA o POvo...((pensativo)) dizia o povo... que... que era um/ que foi uma jovem que morreu no rio e:::... e:::... com tempo se transformou em flor... a vitora-regia... gigante... era enorme... ((perguntamos se tem dia certo para que isso ocorra)) dia de lua... a lua tem que tá refletida na água...

ENTREVISTADORES: Evânia Souza, Ivan Carlos Marques, Leila Cruz e Vilma Trindade

1º entrevista

Alice: Eu já::: com meu próprio filho... que ele morava nos Quarenta e um em Ibicaraí...aí ele gostava de pescá, né? Aí já um dia ele saiu pra pescá aí chegou lá ele...o rio tava cheio ele cai na água pra atravessá o rio e disse que chegou um negoço assim "feito" uma mão e pegou a perna dele e puxou, puxou, puxou que ele num conseguia nadá, nadava , nadava, mas num conseguia sair de dentro d'água, ele quase morre afogado. Aí já até que Deus ajudou que ele conseguiu sair e foi pra casa correno, chegou em casa assombrado e falano que esse negoço tinha pegado no pé dele. Foi o "Nêgo D'água" ( ).

A : Com outro filho, meu filho caçulo. Ele era pequeno...eu tinha...morava perto do rio, o rio era fundo, mas tinha um lugá raso e eu lavava sempre roupa:::aí ele um dia ele saiu pra tomá banho e eu não vi:: aí procurei ele dentro de casa...aí fui lá no lugá que eu lavava roupa, ele tava lá tomano banho e quase também acontece a mesma coisa...puxou esse "Neguinho D'água", puxou a perna dele e que ele quase, quase morre também. Aí também desse dia pra cá eu num deixei mais ele ir tomá banho no rio. ((Risos)).


2ª entrevista:

Dona Maria: Eu vi:::minha mãe falava...meu pai cansou de ver no poço...uma "Mãe D'água". (Acho que era uma menina linda), mas quando chegava perto ela caía dentro d'água...que era da água, né?, num podia dexá pegá. Mas disse que era bonita, uma menina bonita, viu?... Aí a gente viu... - o meu pai também contava, que passou num lugá e (acho que viu uma pedra e dentro da pedra, acho que a pedra parece que era assim "invurtava" não sei, né?)...Aí disse que tinha um gá:::um gá:::cantava que nem um galo, mas ninguém nunca viu, pelejava, nunca a gente pegou pra ver, mas num vê...era assim invisível.

V: Sim, a pedra era encantada. ((Risos))

M: Era... era encanta mesmo, viu?...mas disse que era bonito. Agora o meu pai num de ( ) eu queria vê...pai disse: pra que? Você corrê?...e a gente tinha medo, porque a pessoa num tinha coragem...tem medo mesmo, né?...Eu mesmo sim, causa desse negoço, cantando lá sem a gente ver, pensa aí?!!! ((Risos)) Aí não dá, né?... Eu tinha vontade vê, que nem essa "Menina D'água"...tinha uma vontade de ver, mas nunca vi. E o poço era grande, viu?!Aquele poção assim, ((enorme)) agora uma "lajedo" com o ((daqui não))...que ela ficava deitada...aí na hora que chegava...via gente ela ia pra dentro d"água...não esperava.

3ª entrevista

Seu Henrique: Eu já ouvi...já ouvi minha avó contava o causo...de ela a "Mãe D'água" eles plantava... tinha um prantio de fava na beira do rio, muito grande e sempre sumia as faveira, né?...sumia as faveira, quando foi um dia aí o meu avô ficou botano sentido...quando chegou aí a "Mãe D'água" saiu de lá e tava catando as fava, aí catou as fava tudo...aí quando chegou ele pegou aquela moça dos CABEÃO, aí ele pegou ela e trouxe pra casa...aí chegou cá e disse menina "e pra te chamar" aí ela ficou muda, não conversou mais...aí trouxe que ela que era para dar um presente a ela...aí foi lá na loja, chegou lá, comprou tudo vermelho né?, que é que nem a dona do mar, tudo vermelho, cabou o pente vermelho, tudo vermelho, cabou, botou no cabelo dela, tudo, vestiu o vestido, aí ele chegou lá no rio, encostado no posto, deixou ela e cabou se escondeu, aí ela olhou, olhou, assuntou tudo, olhou e num viu ele, "tirou os trem tudo" olhou, reparou tudo, cabou tornou voltar outra vez também, caiu nas águas...aí num veio mais catá faveira. ((Risos))

4ª entrevista

Seu Domingo: Já ouvi alguém dizê. Um cunhado meu foi pescá, na fazenda "Ripieiro", ele e um cumpade meu, Manuel Aroga e pegaram um "Neguinho D'água" às duas horas da tarde...na rede...quando foi pegá ele, ele pulou dentro d'água aí sumiu...
V: Quer dizer que ele é muito rápido?
D: Ele é muito rápido, exatamente. ((Risos))
V: E esse "Nêgo D'água" como ele era?
D: Era pequeninho, pretinho...((risos))

5ª entrevista

Dona Rosália: Eu já...eu já vi! Eu fui lavá roupa numa casinha lá no São José aí eu vi um "Neguinho D'água", muito bonitinho...ele subiu numa pedra...muito importante o neguinho...aí eu fiquei olhano...aí no momento que eu fiquei olhano ele voltou, mergulhou dentro d'água novamente...mas eu achei muito importante.
V: Como era esse "Nêgo D'água"?
R: Era pretinho...parecendo um mulequinho mesmo...mas muito importante...Eu vi!!!

ENTREVISTADORES:LIVIA ALMEIDA; MONIQUE MATOS; SAMARA DE OLIVEIRA; THAYZE GUIMARÃES

ENTREVISTAS REALIZADAS NO DIA 31 DE OUTUBRO DE 2009, NA CIDADE DE ALMADINA.



ENTREVISTA Nº1
IDADE: 56 anos



Grupo= Boa tarde!
Maria Célia= Boa tarde!
Grupo = qual o nome da senhora completo?
Maria Célia= Maria Célia Bispo Santos
Grupo = quantos anos a senhora tem?
Maria Célia= É::: agora pra decora:::r ((risos)) quarenta e seis.
Grupo = A senhora pesca há muito tempo?
Maria Célia= O::: eu pesquei muito. Agora em vez em quando eu ainda vou e ainda pesco...
Grupo = Mas pesca aqui pela região mesmo?
Maria Célia= não eu pesco mais pro lado do Ouro... A região aqui eu não gosto muito não
Grupo = A gente tava conversando com uns pescadores e eles falaram que já viram um monte de coisa na água. Aí falaram do nego d’água, do boi-tatá, falaram da sereia. E a senhora já viu alguma coisa assim?
Maria Célia= onde vi uma sereia uma vez eu tinha catorze anos, mas já não foi nessa região aqui... eu morava em Poções.
Grupo= Como foi? Conta aí pra gente
Maria Célia= É uma moça linda, cabelão. Eu era menina inda, ela me chamando aí, mãe tava lavando roupa e eu ia né? nadano. Aí quando eu gritei mãe, mãe dizia “tu évai pra onde menina”, digo, “ a moça ta me chamano. Eu eia aí ela me gritou aí eu voltei pra beira d’água. Dessa vez eu tinha base de uns dez anos. Daí pra cá eu não vi mais nada, nem nego d’água nem nada.
Grupo= Mas, como era essa sereia?
Maria Célia= Era uma moça, uma moça linda, cabelos loiros bonitos....
Grupo= E os pés, era de peixe?
Maria Célia= Não, eu num vi. Só vi ela daqui pra cima.
Grupo= Na água?
Maria Célia= Na água!
Grupo= Na pedra ou:::
Maria Célia= Não no meio da água. Agora não sei se ela tava flutuando, ou num sei... Sei só que eu só vi daqui pra cima. Aí eu ia e ela ia também, ia nadando de costa e :::
Grupo=Coberta toda, ou tava nua?
Maria Célia= Não tava tipo::, tipo:: uma roupa. Num via muita... Só via a pele mas, só do braço. Do corpo ninguém via pele.
Grupo= A senhora pesca mais de dia ou de noite?
Maria Célia= Bom! Eu pescava de dia e de noite. Depende do dia...
Grupo= tinha medo não de pescar de noite?
Maria Célia= Tenho medo não, eu gosto.
Grupo= Que horas foi que a senhora viu isso?Quando a senhora tinha catorze anos?
Maria Célia= Foi uma base de uma::s três horas da tarde
Grupo= e como foi essa estória do nego d’água que falaram pra senhora?
Maria Célia= A estória do nego d’água o povo conta mas eu num acredito não. Eu nunca vi...
Grupo= Mas a senhora conta pra gente como é que o povo conta?
Grupo= o povo fala como assim?
Maria Célia= eu nem entendo mais como é ...
Grupo= Mas eles falam o quê? Que é o que esse nego d’água?
Maria Célia= Diz eles que é um anão, um menino né?!
Grupo= E esse menino faz o que?
Maria Célia= Num sei. Nunca vi.
Grupo= mas o povo fala, pra senhora, que ele faz o que?
Maria Célia= Que ele aparece para as pessoas mas também, num faz nada
Grupo= Na água?
Maria Célia= Na água... tem gente que vê ele sentado na pedra... mas isso aí eu num acredito não...
Grupo= a senhora só acredita no que a senhora já viu né?
Maria Célia= Nunca vi.
Grupo= Mas a sereia....
Maria Célia= Essa eu já vi... essa aí eu já vi...do meio pra cima eu já vi ela...Agora só num vi o pé... Essa aí eu já vi...


ENTREVISTA Nº 2
IDADE: 65 anos



Grupo= Qual o nome da senhora completo?
Armezina= Armezina Rita de Jesus
Grupo= Quantos anos a senhora tem?
Armezina= 65
Grupo= Então... A senhora pesca há muito tempo?
Armezina= A::: muito tempo.
Grupo= É? Mais ou menos quando a senhora começou a pescar?
Armezina= Eu nem alembro, eu acho que eu... tinha uns seis anos. ((risos))
Grupo= Mas a senhora pesca em rio de água doce ou no mar?
Armezina= Pesco de água/ não no mar eu nunca pesquei não.
Grupo= E a senhora já ouviu alguma estória, já viu alguma coisa na água?
Armezina= Nunca vi nada, só vi uma cabeça... um cabeção....
Grupo= Uma cabeça?
Grupo= era de homem ou de mulher?
Armezina= Eu num sei... era de longe mas eu acho que era de mulher.
Grupo= Dentro do rio?
Armezina= Dentro da presa.
Grupo= Mas como era? Como assim? Era a cabeça pura? Fazia alguma coisa?
Armezina= Bom! Se pra baixotinha alguma coisa eu num sei né... Agora, que a cabeça, o cabelo ficava nadano por cima d’água eu vi!
Grupo= mas será que a cabeça mexia ou não?
Armezina= Sumiu
Grupo= Mas a senhora via se mexia? Alguma coisa assim, um olho?
Armezina= Não eu tava de longe né... Eu tava era de longe aí eu vi...quando eu alevantei que eu falei “Ó a cabeça” ela morgulhou... a cabeça foi descendo..
Grupo= Aí não apareceu mais nada?
Armezina= Não.
Grupo= Que horas eram?
Armezina= era meio-dia.
Grupo= Era o nego d’água?
Armezina= O povo diz que era a sereia né... eu num sei o que era.
Grupo= Tem gente que falar que tem o dia de pescar. É verdade?
Armezina= É ::: é porque o dia de segunda-feira não presta.
Grupo= Por que?
Armezina= Porque num é bom pra pescar é o dia das almas.
Grupo= E se pescar será que tem alguma coisa?
Armezina= Não. O povo que fala, agora eu mesmo num gosto de pescar no dia de segunda-feira não.
Grupo= E a senhora já ouviu/viu mais alguma estória?
Armezina= Não
Grupo= Tem gente que fala que viu o nego d’água...
Armezina= Não eu nunca vi não... num sei, num sei que ( ) é esse não.
Grupo= Mas a senhora já ouviu alguém falar?
Armezina= Já...
Grupo= E eles falam o quê?
Armezina= Bom! Eu já ouvi dizer que tem o nego d’água... que tem não sei o quê... Martim pescador...
Grupo= Martim? A::: eu já ouvi falando também, mas ninguém fala como é a estória...
Armezina= Por sinal, o Martim pescador eu também, eu acho que já vi... porque eu tava pescando um dia meio-dia. Aí eu vi dois menino. Esses dois meninos tava todos dois de azul... Ai::: quando eu fui correndo que eu... que eu panhei o anzol, que eu corri, os menino sumiu... aí eu (conversando) com o povo... aí me disseram que era o Martim, agora se é eu num sei se era.
Grupo= Mas eles fazem algumas coisa?
Armezina= Não só fazia ficar pulano na beira da água.
Grupo= Mas e são dois?
Armezina= Era dois era... Somente.
Grupo= E o boi-tatá? A senhora viu o boi-tatá... um negócio que parece um fogo... sei lá....
Armezina= Sei não, nunca vi não, nunca vi falar
Grupo= Tem a estória do boi d’água...
Armezina= Nunca via não.
Grupo= E esse Martim era menino ou era homem?
Armezina= era dois homem...
Grupo= Dois homens?!
Armezina= Dois homem.
Grupo= E ele ficava fazendo o que? Só pulando na água?
Armezina= Só pulano...não na água só não... pro lado de fora... num tava den/ d’água não. Tava no (bico) da presa só pulano. Agora eu só sei que eles sumiram. Num sei pra onde deu... num sei pra onde correu.... num sei se entrou dentro d’água, num sei, eu sei que eu corri... corri e corri de mais.... e::: foi só.


ENTREVISTA Nº 3
IDADE: 65 anos

Grupo= Qual o nome do senhor completo?
Pedro= Pedro Marque de Jesus
Grupo= Quantos anos o senhor tem?
Pedro= 65 anos
Grupo= Então... O senhor é pescador?
Pedro= Sou
Grupo= Há quanto tempo?
Pedro= Desde pequeno que eu pesco.
Grupo= Desde criança começou pescar?
Pedro= (base) de oito anos eu já comecei pescar
Grupo= Certo. E o senhor já ouviu alguma estória... já viu alguma coisa?
Pedro= Já vi sim.
Grupo = O que assim?
Pedro= A primeira vez que eu vi... eu sai pra pescar... to pescano joguei o anzol, peguei um traira, a traira caiu lá e caiu den/ d’água... torneu jogar o anzol peguei uma des/ tamanhinho. Sai, pesquei, fui pra cima ( cum poca tô vendo uma zoada assim) PRA PRA PRA PRA PRA PRA PRA. ( ) Eu tirando o peixe e ele jogando pro lado de fora, fui eu tirando peixe e ele jogando pro lado de fora... Eu também num me importei com aquilo. Tornei (sai) do pesqueiro fui pra outro, tornei vim pro pesqueiro começou a pegar peixe... Eu digo é::: eu vou mimbora... E::: tinha um pau que a gente atravessava (quando chegou no meio assim) eu olhei pra trás tava aquele homem com uma vara que ia como daqui lá assim nas costa....chapéu des/ tamanho assim... Eu fiquei assustano assim e digo é::: você pescou mais peixe do que eu... ai sai... vim embora pra casa... Foi só esse o negócio que eu vi na minha vida, só foi esse.
Grupo= Tem gente que fala que tem um nego d’água, sereia...
Pedro= Não... nego d’água eu nunca vi, só a coisa que eu vi foi esse homem que tava pescano quando, eu num vi, na hora que eu sai que fui mimbora que eu vim ver... o chapéu des/ tamanho....
Grupo= Que horas era seu Pedro
Pedro= ...uma::s dez horas da noite.
Grupo= A::: o senhor pescava de noite também....
Pedro= De noite... eu pesco de dia eu pesco de noite. Agora mesmo eu cheguei da pescaria.
Grupo= E foi boa?
Pedro= Deu pra... deu pra entender.
Grupo= tem gente que fala de um nego d’água o senhor já ouviu alguém falando do nego d’água?
Pedro= Já ouvi falar...
Grupo= E eles falam o que mesmo?
Pedro= Vi falar que::... é um tipo de gente... que quase ninguém (conhece) que é encanto da água... é encanti da água... Quer dizer, eu vi muita gente falar que no lugar que tem ele se o camarada começar a xingar ele::: mata afogado...
Grupo= É
Pedro= É:::
Grupo= Tem um que aparece também na água, parece que boi-tatá o senhor já ouviu falar?
Pedro= Não. Eu nunca vi falar nada.
Grupo= Tem gente que fala de sereia..
Pedro= A::: de sereia, esses negócio... mãe d’água...
Grupo= E como é essa mãe d’água?
Pedro= Mãe d’água é uma moça...
Grupo= Mas faz alguma coisa? Canta...? Chama.....?
Pedro= Canta... as pessoa vê ela sentada nas pedras...
Grupo= Aí, eu tava conversando com uns pescadores e eles falaram, falaram que tem dia pra pescar. É verdade?
Pedro= Te:::m
Grupo= Por que? Como assim? Quais são os dias?
Pedro= O dia é quarta, quinta e sexta.
Grupo= Que pode pescar”
Pedro= Pode pescar, mas sexta nem tão bom é... mais é sábado.
Grupo= Por que tem esses dias?
Pedro= Porque sexta-feira é dia das alma... e segunda-feira tamnbém.
Grupo= A::: ai não pode pescar esses dias?
Pedro= A gente pesca que é teimoso... mas num pode pescar (porque sempre que a gente pesca vem/vê) qualquer coisa ( ).
Grupo= O senhor já ouviu alguém falar que pescou no dia que não era pra pescar e aconteceu alguma coisa?
Pedro= Já ouvi já....
Grupo= Falaram o que?
Pedro= Falaram que viu um bocado de coisa lá na beira do rio..... pesca num pega...... Porque não é o dia!
Grupo= Então o senhor sempre pescou, e o senhor pesca por aqui mesmo pela região?
Pedro= Pesco aqui na região... agora no mar eu nunca pesquei.... mas se eu indo pescar eu (pego/pesco) porque eu num tenho medo de água
Grupo= É um bom pescador...
Pedro= Tanto eu pesco com sei fazer a:::: rede de pescar.
Grupo= O senhor pesca de rede e:: de anzol?
Pedro= Pesco de anzol, pesco de rede, pesco de tarrafa... tudo quanto é arte.


ENTREVISTA Nº 4
IDADE: 77 anos

Grupo= Qual o nome do senhor completo:
Erminio= Meu nome é Erminio Alves da Silva
Grupo= E o senhor já pescou? Pesca?
Erminio= Pesquei num to pescano mais porque eu já to ( na idade) ( ) já pesquei muito.
Grupo= E o senhor pesca porá onde? Por aqui mesmo?
Erminio= Não aqui não eu pesquei no rio Gongogi.
Grupo= Gongogi? Mas é água de rio doce, né?
Erminio= Água de corrida... águas forte.
Grupo= No Mara o senhor já pescou?
Erminio= No mar eu não, no mar eu nunca pesquei.
Grupo= E os enhor senhor já ouviu uma estó::ria assim...., uma coisa estranha? Já vi::u? Já ouviu alguém falar?
Erminio= Não ( ) eu nunca vi falar.
Grupo= Seu Erminio o senhor já viu algumas coisa na águas?
Erminio= Já vi muito.
Grupo= É:::? Conta aí uma estória dessas pra gente.
Erminio= Eu tava den/ d’água... eu ( ) e um fulano jogano tarrafa atrás de mim...
Grupo= Quem?
Erminio= Um fulano jogano tarrafa atrás de mim sem eu saber quem era... Só via a tarrafa fazendo TCHA:::R!!!!!!!!!!! Eu na frente pescano e ele tava atrás, mas eu num sabia quem era, porque eu num via só via a zoada. Bom... quando eu saia de den/ d’água... parava... Assim, quando eu tava den/ do rio começava. Mas acho que era o dono do rio, acho que ele também tava pescano também. Bom ( ) quando fui, já tarde da noite, chegou uma rapaziada ... nós pegamo um ( ) des/ tamanho aqui Ó:: eu bracei ela aqui Ó. Quando eu bracei ela aqui Ó ( ) eu falei “bebe água d despedida” ela deu um sopapo, eu fui pra trás, eu cai... aí eu também eu ( ) viemo simbora.
Grupo= Mas o senhor acha que era gente?
Erminio= eu num sei ( ) eu sei que jogava... a tarrafa.
Grupo= Mas o senhor acha o quê?
Erminio= eu acho que era dono do rio pescano.
Grupo= A::: e como era esse dono do rio? O senhor num via não?
Erminio= Ninguém via, só via assim o movimento ( ).
Grupo= Só a zoada né?
Erminio= É:::
Grupo= E como é que ele fazia na água? Só jogava a tarrafa?
Erminio= A tarrafa... ROM TCHAR( ) ROM TCHAR... “Quem é ( ) eu olho pra lá num fui vendo ninguém. Quem é que ta aí?” BRUMMM, TCHAR.....
Grupo= A gente tava conversando com/
Erminio= Ai ( ) quando foi meia-noite ( ) dez hora da noite, chegou a rapaziada.... ( tava num ponto) ( ) quando eu peguei ela aqui que eu bracei ela ( ) quando eu peguei ela, assim aquele bicho todo ( ) eu disse “êita João, e::: mas era quatro pescador... pra segurar era quatro, pra ... pra pegar a rede.... um aqui, outro lá, é::: dois no meio pra conseguir suspender e pegar ( )... Eu peguei ela aqui assim ( aí o cara jogou ela pra cima e ela foi embora)...
Grupo= E sereia o senhor já viu algumas sereia?
Erminio= Não eu nunca vi.
Grupo= E o boi-tatá?
Erminio= Também não.
Grupo= e o nego d’àgua?
Erminio= NUNCA vi.
Grupo= Nunca? O senhor nunca viu nada estranho na água?
Erminio= Só vi esse movimento né!
Grupo= Só esse movimento né?
Erminio= Agora/ eu to falando o que eu vi , né?
Grupo= Mas ninguém nunca contou pro senhor assim não...? o pai do senhor...? avó...?
Erminio= Não, eu num conheci nem pai nem avó.

ENTREVISTA Nº 5
IDADE: 52 anos



Maria= Quando eu peguei os peixe, falei assim, “agora vou pelar os be´r pra levar pra casa limpo, os peixe”... Cheguei na pedra, sentei em cima da pedra né, uma pedra de uma lado e uma pedra do outro... comecei a limpar o peixe, quando eu olho pro outro lado Ó::: UM NEGO SENTADO... NU, baixinho, barbudo, cabeludo... Assim sentado de (cócoras) na pedra. Quando eu olhei pra ele eu disse “MISERICÓRDIA” e ele TCHU:::M entrou den/ da água de novo... sumiu den/ d’água. Aí ele tornou a aparecer na outra pedra. Eu falei assim “Isso num é um homem não, isso é o diabo ((risos)) Aí eu corri vim pra casa... corri... deixei até o peixe sem temperar em cima da pedra... no rio da Amazonas... lá em cima...
Grupo= Mas era em forma de gente assim?
Maria= Era nego d’água, era o nego d’água em forma de gente... cabeludo barbudo... tava pelado...
Grupo= que horas era isso?
Maria= Meio/ perto de umas onze hora pras doze...
Grupo= Do dia?
Maria= Do dia sim.
Grupo= A::: e de noite? Tu já pescou de noite?
Maria= – Era o nego d’-água... – De noite quem pescou foi Amerco mais Amarante. Amerco foi pescar... aí jogou o anzol den/do rio né... quando (o anzol tava no rio) chegou um bicho... um negócio... parece que era trem ruim que tem, por den/ d1água e deu um nó no anzl, deu um nó no anzol e botou força... e Amerco botano força pra tirar o peixe, botano força e o peixe num saia... aí Amerco disse assim : “Que demônio é esse (que ta) no anzol? Quando Amerco (falou que era o demônio) disse que o bicho fez assim: VAP na vara de anzol e quebrou a vara... do anzol... Amerco sabe contar melhor ainda, Amerco sabe...
Grupo: Mas tu pescava por aqui mesmo?
Maria: Pescava
Grupo:Em que rio?
Maria: Na Amazonas, lá em cima... lá em Lacerda... já pesquei em Lacerda, lá no rio perto da sede. Num tem o poço de pau (ali perto da xácara?) aquele de pedra Mauricio? É ali que o nego d1água fica
Grupo: Mas tem hora assim, dia assim específico que a senhora sabe?
Maria: Eu sei que eu vi ele duas vezes....
Grupo: No meio da semana, Maria?
Maria: Dia de quarta-feira.
Grupo: Dia de quarta-feira. Os dois ( ) foi na quarta-feira.
Maria: É::: quarta-feira... Agora ele me chamou pra mim tomar banho lá, eu disse: “Deus me livre ( ) aquele nego tá lá me esperando ( )... num vou não.
Grupo: Mas foi/?
Maria: O nego é FEI, Mauricio, é fei, barrigudo, baixinho, todo parrudinho, agora é o nego/... barbona. Quando eu olhei...ia falar: “Misericórdia, que negócio véi” – TCHUM ... fundou...
Grupo: Mas foi algum dia assim de semana santa?
Maria: Foi depois da semana santa.
Grupo: Mas será que tem alguma coisa com a época?
Maria: Não, eu acho que não... acho que... não... quando a pessoa tá sozinha no rio que ele aparece... eu tava sozinha, aí aparece... qualquer, qualquer visagem.
Grupo: a senhora tava sozinha?
Maria: É::: agor/ quand/... que a gente ir com duas, três pessoas, só representa pra gente mas ( a mulher que foi num vê não) só quem vê é a gente.
Grupo: Então não é todo mundo que vê?
Maria: Não... fui pescar uma época também que eu vinha da Amazonas de Lacerda pra cá...né!? quando eu cheguei na curva de pedra, num tem uma curva de pedra ali? ( ) – tinha uma mulher sentada na pedra né.. ela com cabelão assim..., jogado assim..., os peitos batido ó::: os peitos dela descido e ela sentada na pedra bem assim, de cabeça baixa... aí eu falei assim: “Sai da estrada que eu quero passar”... ela nem ligou (pra eu passar) quanto mais eu pedia que ela num saia... aí eu falei assim, no meu coração né, “Sangue de Cristo tem poder, eu vou passar...., eu vou passar.... aí eu meti cara, passe, baixei a cabeça e passei...aí quando eu ia ...como daqui a (a lavadeira) ela deu três gemidos, deu três gemidos... eu disse assim: “agora que eu vou morrer” ((risos)).
Grupo: Mas essa num era da água não?
Maria: Eu num sei que eu tav/... eu vinha do rio.
Grupo: A::: mas ela tava fora da água.
Maria: tava fora da água.
Grupo: E fora o nego d’água tu já viu alguma coisa estranha assim? Dizem que tem o boitatá né?
Maria: eu vi foi o lobisomem, que foi quando eu Evinha do...
Grupo: Na estrada?
Maria: Na estrada. Quando eu vinha do rio... eu tava pescano e topei com o lobisomem... minha filha... o lobisomem é coisa feia viu.... Óia Samara, o lobisomem ela tava cheio de osso... parece que os osso dele quebras assim CRA CRA CRA CRA... parece que o corpo dele descola todinho ( ) ele passa ( ) e os ossos CRA CRA CRA os ossos dele esbagaça todo. Eu digo “É:::senhor... vai me comer agora ((risos)). Mas, mas foi Deus que me abençoou que tio Amerco também... encontrei com pai dela aí... o pai dela ia me encontrar, ia daqui pra lá encontar comigo na estrada ( ) aí eu falei “Amerco ( ) tem um lobisomem ( ) ê:::: meu padrinho ( eu acho) que é um lobisomem aí ele disse “deixa esse filho da puta me aparecer aqui agora.... mas num foi dois tempo...
Grupo: Ele apareceu?
Maria: Tornou a aparecer já ( ) na cerca assim... deu a volta ssim, já saiu o meio da rodagem. Ai Amerco viu ele... quando Amerco viu ele disse assim: “Deixa ele vim” quando Amerco viu ele passou o facão assim na rodagem, saiu fogo do chão assim...( )
Grupo: Agora seu Amerco falou também que disse que ... eu falei ( se apareceu pra ele outra coisa na água) ele falou que aparece a sereia, só que... assim mulher vestida ( ) ela só aparecia pra mulher, pra homem ela não aparecia ele disse que nunca viu não que só aparece pra mulher... Tu já viu/
Maria: Eu já vi a sereia, oh eu vejo ela tod/ quas/ toda semana ( ) quando eu to (ali) pescano.
Grupo: E é:::
Maria: Lavando roupa...
Grupo: Onde Maria?
Maria: No poço...
Grupo: E ela faz o que? E como? Como assim?
Maria: Ela fica nadano ó::: aquele rabão, vai lá e vem cá ó::: e deitada....
Grupo: Como é o cabelo? De roupa?
Maria: Ela tem roupa... daqui pra cima é roupa, daqui pra baixo é um rabão... um rabão lindo que brilha...chega brilha assim ó::: o rabo dela...
Grupo: Mas ela faz o que, alguma coisa ou fica parado?
Maria: Ela fica andano, nadano...., olhano pra gente (fica olhano pra gente)
Grupo: Mas tem forma de gente mesmo?
Maria: é em forma de gente é:::
Grupo: Mas a calda ( em forma ) de quê?
Maria: De peixe, de peixe... a calda é de peixe...
Grupo: Mas é que cor assim?
Maria: É::: ela é::: é duas cores... é um azul e ro:::as, parece... azul e rosa... é azul e rosa.
Grupo: Cabelo curto ou grande?
Maria: Grandão o cabelo dela...
Grupo: Ela usa roupa de pano ( mesmo assim)?
Maria: A roupa dela eu num sei se é de pano (num sei) de que é:::: é uma roupa muito bonita....( ).

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